February 17, 2006

the boredom, the boredom

Não foram poucas as pessoas que celebraram a surpreendente vitória do Hamas nas eleições palestinas como sendo o começo do fim do grupo terrorista. Afinal de contas, das duas uma: ou eles afirmavam definitivamente sua política anti-Israel, abrindo o caminho para uma declaração formal de guerra, ou baixavam a bola e entravam no jogo diplomático. Parece que decidiram pela segunda opção, já que, como disse o Scott Adams, “é difícil conciliar ‘destruam Israel’ com ‘vamos nos reunir no prédio do parlamento amanhã, ao meio-dia, para falar sobre isso’”.

Esta postura, digamos, cínica surge com força total a cada sinal de recrudescimento da violência ou de que o caminho para a democracia no Oriente Médio não está indo no sentido que o governo norte-americano esperava ao começar a guerra no Iraque. A eleição parlamentar deu uma vitória esmagadora aos xiitas? Não se preocupe, eles vão continuar incentivando a violência e, com isso, acabarão angariando a inimizade do povo que só quer reconstruir o país.

O mesmo raciocínio costuma ser aplicado, pela mesma parcela da intelligentsia, à América Latina. Lula vai se reeleger? Que bom, agora ele enterra o PT e a esquerda de vez. Os uruguaios elegeram um socialista? Que bom, ele vai afundar o país e eles, também, vão aprender que direita ou esquerda é tudo igual. Hugo Cháves? Pfui, esquece, praticamente um ditador que está levando o país à pobreza e à guerra civil. Os bolivianos também não perdem por esperar com seu presidente que mal pisou no palácio e já deixou de lado o discurso de estatização das usinas de gás.

Por fim, cada uma dessas vitórias da esquerda latino-americana, ou de radicais muçulmanos no Oriente Médio, acaba celebrada como confirmação de que Washington está no caminho certo, e precisa apenas se manter firme e servir como o exemplo que, cedo ou tarde, todos irão se dar conta que é aquele a ser seguido.

Bom, acho que se alguém ainda duvidava das minhas raízes esquerdistas não tem mais com que se preocupar. Mas embora pareça, este não é um desabafo anti-direita, mas sim um desabafo anti-maniqueísmo. A verdade é que ando de saco cheio de ler comentários sobre política ultimamente, porque tudo cada vez mais se reduz a implicâncias de criança, entre os “da direita” e os “da esquerda”, “conservadores” e “liberais”, ou “republicanos” e “democratas”.

A Folha de S. Paulo publica uma espécie de editorial canhestro sobre a revitalização de uma direita ideológica no Brasil, que sempre existiu, simplesmente nunca teve que lidar com um suposto governo de esquerda. Alguns, então, colocam o capuz e se mostram ressentidos de que “a direita” seja tratada como uma coisa só, sem menção a autores importantes e suas diferentes tendências, como se costumassem tratar esquerdistas com tal respeito.

O Mario Sergio Conti acha que dois filmes com uma temática de esquerda-paranóica, feitos por um dos atores mais afinados com esta esquerda-paranóica, em uma terra onde o que mais abunda são atores afinados com esta esquerda-paranóica, na verdade são um sinal dos tempos. O Francisco, profundo conhecedor da realidade norte-americana depois de anos vivendo no e estudando o País, diz que na verdade os filmes são um sinal exatamente do oposto.

Já o Smart Shade of Blue, pilar da blogosfera brasileira de esquerda, diz que o Hugo Chavez é um fascista em potencial, mas que o pessoal da “direita anaeróbica” deveria prestar atenção em como ele se sustenta no poder através do enriquecimento sustentado no petróleo, e nas semelhanças do caso com os EUA. Os mesmos EUA que levam ele e o Paulo a ficarem trocando gracinhas através de seus blogs, e com a leva de comentários inúteis que sói surgir deste tipo de situação.

E nem vamos entrar na questão do punditry norte-americano, onde Andrew Sullivan é chamado de blogueiro de esquerda por chamar atenção à absurda concentração de poder no Executivo sob a tutela de George W. Bush e alguns outros ideais tipicamente conservadores, mas Glenn “Instapundit” Reynolds, com sua postura tipicamente holier than thou, acha que estão todos fazendo muito barulho por nada.

Tudo isso, sinceramente, é um saco. Eu leio, leio, e só consigo ver duas crianças na sala do S.O.E. de um colégio, gritando “foi ele que começou” a plenos pulmões. E de saco cheio, pouco sinto vontade de postar por aqui. Mas sempre há esperança, assim como sempre há blogs que merecem ser lidos. Quando eu puder apontar 10 blogueiros ali no meu blogroll com a qualidade do Matthew Yglesias ou do Cleber, vou ficar bem menos de saco cheio.

1 Comment »

The URI to TrackBack this entry is: http://inductio.blogsome.com/2006/02/17/the-boredom-the-boredom/trackback/

  1. Obrigado, Solon, por concordar comigo e ainda fazer parecer que tu está discordando. Não são muitos que conseguem.

    Comment by Cisco — February 17, 2006 @ 4:56 pm

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>