mais uma
Eu já cansei de repetir por aqui que ciclone por nossas bandas é, quase que literalmente, um fenômeno meteorológico tão comum quanto a chuva. E também não é de hoje que canto loas à seriedade e competência do pessoal da Climatologia Urbana de São Leopoldo.
Pois via e-mail eles me chamam atenção para mais uma presepada dessa nossa preparadíssima imprensa marrom. Na metade da semana passada, Argentina, Uruguai e o Rio Grande do Sul sofreram com chuvas e vento forte devido a um ciclone extra-tropical que se formou ao sul de Buenos Aires. Na Argentina, mais de mil pessoas ficaram desabrigadas, e por aqui teve ventos de até 100 km/h e suspeita de tornado em Mostardas.
Pois acontece que junto deste, surgiu outro ciclone no nosso litoral, este com características tropicais. Para os que não se lembram, ou não sabem, a Climatologia esclarece:
Um ciclone de estrutura tropical inicialmente assume a condição de depressão tropical com vento de até 60 km/h, após passa à condição de tempestade tropical com vento regular de 60 a 120 km/h e somente se o vento superar os 120 km/h estará atingido o status de furacão.
Felizmente, este ciclone tropical, o primeiro a se formar no Atlântico Sul desde o Catarina e que a partir daqui será tratado por 90L INVEST (nome recebido dos órgãos de meteorologia norte-americanos), não se desenvolveu e seus ventos não passaram de 50 km/h. Segundo o professor Eugenio Hackbart, ele se dissipou ao encontrar uma zona de grande divergência de ventos antes de poder sequer se transformar em uma tempestade tropical. Além disso, como é costumeiro em nossa região, ventos soprando majoritariamente de oeste empurraram o 90L INVEST para alto-mar, ao contrário do que aconteceu no famoso caso do Catarina.
Assim, no dia 25 de março (sábado de carnaval, pr’aqueles cuja memória não é mais a mesma) não havia mais ciclone tropical algum no Atlântico Sul. No entanto, isso não impediu o Diário Catarinense de, três dias depois, publicar esta maravilha:

“Qual o problema?”, pergunta o leitor menos atento. Deixemos que o professor responda:
“[Primeiro] o sistema que foi chamado de furacão estava dissipado ainda na manhã de sábado, portanto quatro dias antes. Segundo, o sistema foi o primeiro ciclone tropical a se formar desde o Catarina no Atlântico Sul, mas jamais chegou perto de se transformar em um furacão. Terceiro, a foto utilizada na capa foi do ciclone extratropical que afetou o Rio Grande do Sul no sábado de Carnaval, logo um sistema completamente diferente e que nenhuma relação guardava com a manchete.”
Mas, hein? Alguém aí conhece a fábula do garoto que gritava “lobo!“? Pois é isso que essa mania de ser alarmista com coisas que não merecem tamanha preocupação vai acabar causando. Da próxima vez que, de fato, um furacão atracar nas nossas costas, milhões de pessoas vão estar ña praia curtindo o veraneio simplesmente porque não deram bola para o que alertou o noticiário.
Isso sem nem falar no fato de que, se o 90L INVEST tivesse, de fato, virado um furacão, é difícil saber qual teria sido a utilidade de dar a notícia com tanto atraso. Enfim, mais uma vez, fica a dica: querendo comentários, opiniões e previsões meteorológicas confiáveis, nunca deixem de conferir a Climatologia e suas coberturas, como a desses dois ciclones.
- jornalismo, ciência | Time: 11:57 pm

Eu fiz matérias sobre os ciclones pra ZH, sempre falando com o pessoal da Climatologia Urbana. Não tinha visto isso do DC. Vou até pesquisar a matéria e ler depois.
Comment by Mirella — March 8, 2006 @ 12:56 pm