tudo errado
O gigantismo da internet tem porém pés de barro. Se ganha no alcance, perde no poder de concentração e análise. Qualquer pessoa, medianamente informada ou sem informação alguma, pode manter uma fonte de notícias ou comentários com responsabilidade zero, credibilidade zero, coerência zero.
Carlos Heitor Cony, em coluna para a Folha, entendeu tudo errado. Para começo de conversa, esta mania de arrogar à imprensa o monopólio da verdade e credibilidade é tão equivocado quanto pressupor que apenas políticos de esquerda podem ser honestos e bem intencionados. Mas o pior é que, em sua análise, ele dá à imprensa exatamente o poder que, cada dia mais, pertence a blogs e fontes de mídia alternativa.
Sua confusão talvez se explique pelo fato de Cony ser escritor e pelo perfil dos grandes blogs brasileiros. Mas se há algo em que blogs jamais conseguiram ou conseguirão competir com grandes jornais e conglomerados de mídia é na cobertura de fatos, especialmente de coisas tão grandes como o mensalão. A quantidade de material e gente necessários para este tipo de empreitada são algo que só uma grande empresa midiática é capaz de agregar em um só lugar, ao mesmo tempo.
Por outro lado, blogs são a mídia perfeita para que especialistas falem sobre aquilo que entendem, coisa em que jornalistas são notoriamente incompetentes. Um jornalista normalmente não entende mais de direito do que qualquer cidadão comum, e quando precisa noticiar algo essencialmente jurídico, muitas vezes deixa passar informações que lhe pareciam bobas, mas de fato são muito importantes. Algo que pode facilmente ser apontado por um advogado em seu blog.
Agora, pensem em blogs brasileiros famosos. Ou são blogs de piada, como o Kibe Loco, ou são blogs de jornalistas fazendo clipping do que sai na imprensa durante o dia, como Ricardo Noblat, Josias de Souza e Jorge Moreno. Com esta realidade, não parece tão improvável que Cony pense que blogs possam competir com a grande imprensa na produção de notícias. Noblat, em especial, ficou famoso ao ser citado pelo então deputado Roberto Jefferson ao depor na CPI dos Correios.
Noblat é um jornalista experiente, ligado a um grande jornal, e certamente com vários contatos em Brasília e nos bastidores da política nacional. Não é de se estranhar que seu blog tenha, ao longo do escândalo do mensalão, ajudado a pautar grandes jornais brasileiros. Ainda assim, 90% do seu espaço é dedicado a simplesmente citar passagens de notícias publicadas em grandes jornais ou portais de notícia brasileiros.
Acompanhasse blogs, de fato, e Cony veria que nestes produz-se muito pouco daquilo que costumamos chamar de hard news, notícias sobre acontecimentos cotidianos e de alguma maneira relevantes para um grande público. Ao contrário, a maior parte dos blogueiros costuma se dedicar ao que estou fazendo neste momento: emitir opinião.
E quando se aventuram na terra do que alguns chamam de jornalismo cidadão, blogueiros produzem exatamente a visão de um cidadão comum em relação a algum evento bem específico. Sem contatos de pessoas importantes, quase sempre com empregos que nada têm a ver com o assunto do blog, é muito difícil imaginar que alguém vá ser capaz, ou mesmo que terá vontade, de fazer alguma grande investigação sobre alguma coisa. Quem gosta de fazer essas coisas acaba dando um jeito de virar jornalista.
Quanto à questão da credibilidade, me parece um no brainer, algo que não precisa de mais que um neurônio manco para se entender. Hoje em dia, em muita parte graças a estes mesmos blogueiros em quem Cony não confia, a imprensa tem passado por uma das maiores crises de credibilidade em sua história. Jayson Blair, Stephen Glass, Dan Rather, Eason Jordan, James Frey, Ben Domenech, são apenas alguns que, mesmo ligados às maiores corporações midiáticas dos EUA, tiveram suas falcatruas expostas por blogueiros.
No Brasil, a Istoé teve sua credibilidade bastante abalada devido a críticas de seu antigo editor de Política. E também tivemos o episódio da suposta entrevista exclusiva feita com Woody Allen, muito bem desmascarada pelo Parada. Obviamente, o fato de algo sair na grande imprensa não é garantia de credibilidade, e nem é pelo fato de ser um jornal ou revista de grande circulação que um veículo garante sua credibilidade. Normalmente, é exatamente o contrário que ocorre.
- jornalismo | Time: 1:36 am

“O mercado da informação, que formaria o poder no mundo moderno, em breve estará tão poluído que dificilmente saberemos o que ainda não sabemos: o que é mentira e o que é verdade.” Essa premissa do Cony já era verdade antes dos blogues e da Internet.
Comment by Daniel Gallas — April 12, 2006 @ 2:21 pm
exato. e no caso da imprensa, os blogs têm ajudado muito mais em identificar as mentiras do que em criá-las.
Comment by Solon — April 12, 2006 @ 6:45 pm