July 15, 2006

tempos interessantes

“Não estamos lutando para que vocês nos ofereçam alguma coisa. Estamos lutando para eliminá-los”. - Hussein Massawi, antigo líder do Hezbollah

Há seis anos, em maio de 2000, as forças militares israelenses se retiraram da faixa de segurança no norte do país, que ajudava a proteger suas cidades fronteiriças de ataques do Hezbollah, no sul do Líbano. À época, o então primeiro ministro Ehud Barak disse que se o grupo xiita, que considerava a retirada uma vitória, se aproveitasse da situação para causar danos a Israel, o Líbano sofreria um golpe que jamais esqueceria.

Em outubro, três soldados israelenses foram seqüestrados em Har Dov, na fronteira com o Líbano. No mesmo dia, palestinos destruíram a tumba de José, em Nablus (Cisjordânia), uma semana depois de iniciada a segunda intifada. Preocupados em não ter que encarar batalhas em duas frentes, Israel iniciou uma política de contenção do Hezbollah, respondendo a eventuais ataques mas nunca usando de muita força e até mesmo fazendo negociações de troca de prisioneiros.

Em 2004, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1559, estabelecendo que o Hezbollah deveria ser desarmado pelo governo libanês e que forças estrangeiras deveriam deixar o país. Com a revolução do Cedro, seguindo ao assassinato do ex-premier Rafik Hariri, o país conseguiu finalmente expulsar todas as forças sírias de seu território e ter uma eleição efetivamente democrática. Infelizmente, o Hezbollah conseguiu suficiente espaço no parlamento para conseguir vetar quaisquer tentativas do governo de desarmar as milícias em seu território.

É essa resolução que o premier israelense Ehud Olmert disse que irá levar a cabo, depois que dois soldados da IDF foram seqüestrados e outros oito foram mortos em uma ação do grupo xiita na fronteira com o Líbano na última quarta-feira. Esperava-se que Israel fosse tratar a situação com a candura de sempre, devido à preocupação de criar duas frentes de batalha - já que na Faixa de Gaza continuava a operação em busca de Gilad Shalit, cabo do exército israelense raptado por palestinos em 25 de junho. Mas três dias depois o que temos é, a rigor, uma guerra em duas frentes.

Toda essa gigantesca introdução para dizer que, pela primeira vez na vida, a situação no Oriente Médio de fato me preocupa. Olmert diz que a ação não irá parar enquanto o Hezbollah não for desarmado, mas o seu exército já viu dias melhores. Já o chefe do grupo terrorista diz que está disposto a travar uma guerra aberta com Israel, e que pode atacar a cidade de Haifa ou além. Segundo o Ha’aretz, o grupo teria mísseis iranianos capazes de alcançar Tel Aviv.

Israel bombardeia o aeroporto e mantém navios de guerra na costa libanesa (um deles atingido por mísseis disparados por palestinos, que também teriam acertado um navio civil egípcio), além de bloquear a fronteira. Enquanto isso, mais de 700 mísseis Katyusha já teriam caído sobre os mais variados pontos de cidades no norte israelense.

A França e boa parte da Europa questionam a ação israelense e o imbecil do Hugo Chávez diz que o apoio americano a Israel está levando o Oriente Médio um novo holocausto, enquanto a Arábia Saudita diz que a culpa é de milícias dentro do Líbano, dando combustível para quem acha que é o início de uma coalizão regional contra Síria e Irã. Há quem esteja comparando Gilad Shalit com o duque Ferdinand, e não foram poucos os analistas que vi falaram em “frente oriental” de uma Terceira Guerra Mundial.

Obviamente, a coisa ainda não pára por aí. Mahmoud Abbas está ameaçando extinguir a Autoridade Palestina, o que significaria que Israel, na eventualidade de conseguir suprimir o governo do Hamas, voltaria a ter a responsabilidade de cuidar da Faixa de Gaza, coisa que não quer nem pode fazer com suas atuais condições. No Egito, o presidente Mubarak diz que um acordo havia sido feito para a soltura de Shalit, mas que as negociações foram por água abaixo por pressão do Hamas.

E como se a merda por lá não fosse suficiente, parece que a guerra civil no Iraque é quase inevitável. E na Índia, serviços de inteligência dizem que seus colegas paquistaneses têm culpa pelos bombardeios em Mumbai, piorando ainda mais o ânimo entre os países.

Há a esperança de que o fim disso tudo seja positivo: Israel consegue fragilizar o Hezbollah o suficiente para que o exército libanês faça o que a ONU lhe mandou fazer, o Hamas é forçado a deixar a Faixa de Gaza com o rabo entre as pernas e cria-se uma mínima cooperação entre os países da região para lidar com a ameaça de Síria e Irã. Mas também pode ser que, realmente, estejamos presenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial, em cujo caso não gosto nem de pensar nas possíveis conseqüências. Só sei que, pela primeira vez na vida, não bocejo mais ao ler manchetes que envolvam Israel e mísseis.

3 Comments »

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  1. Ok, mas você não acha que a proporção das ações de Israel pode produzir um efeito contrário? Se o ataque fosse concentrado no Hezbollah, feito com a cooperação de uma força que combinasse a inteligência libanesa com o poderio israelense os danos aos civis do Líbano seriam bem menores, não? Ainda que o governo libanês tenha deixado que o Hezbollah prosperasse, acho que isso foi feito mais por incompetência do que por omissão, mas posso estar errado.

    O problema, ao meu ver, é que a resposta israelense está trazendo uma destruição completamente desproporcional ao que o Hezbollah e o Hamas (já bastante dividido e buscando novos rumos como partido político) vêm causando e têm tudo para aumentar as tensões na região.

    No entanto, quando você tem um exército e um país muito militarizado, a tendência é usar a força (com grande intensidade) em situações onde uma ação pontual poderia ser mais eficaz.

    Ao fim, os civis é que se fodem.

    Comment by Barba — July 18, 2006 @ 5:42 pm

  2. barba: como comentei em outro blog, me sinto extremamente despreparado para ter opiniões formadas sobre eventuais resultados da ação israelense. tudo que sei sobre o que lá se passa é o que leio em jornais e blogs, sempre em discussões extremamente polarizadas.

    já li muita gente, inclusive libaneses, sugerindo que o melhor que Israel poderia fazer agora é cessar os ataques unilateralmente. os bombardeios e o golpe na infra-estrutura foram suficientes para que o Hezbollah esteja fragilizado e que o governo libanês se sinta suficientemente legitimizado a desarmá-los e expulsá-los de vez de seu território, dizem. assim, ao cessar os ataques, Israel mostraria à comunidade internacional que está preocupado com a paz e com o povo libanês, e daria ao governo de seus vizinhos tempo para juntar os cacos e fazer o que precisam fazer.

    por outro lado, não faltam defensores da ação israelense dizendo que o excesso de força é o ideal por duas razões: primeiro, por uma questão de “shock and awe”, de tentar diminuir o ânimo dos terroristas (o que me parece meio bobo contra pessoas que julgam estar lutando pela liberdade de seu povo e de seu país, e que acham que o martírio é o caminho mais curto para o paraíso); e segundo porque, quanto maior a força, mais cedo terminaria o combate e, a longo prazo, menos gente morreria.

    de minha parte, por princípio, tendo a concordar com os que advogam o fim dos ataques, mantendo o controle das fronteiras para evitar que Irã e Síria enviem ajuda logística ao grupo, para ver que tipo de atitude o governo libanês, a ONU e países como Itália e França tomam. mas por outro lado, não consigo deixar de simpatizar com a vontade israelense de voltar a criar uma zona de segurança ao sul do Líbano para evitar novos ataques com mísseis, especialmente com os rumores de que o Hezbollah teria armas capazes de atingir Tel Aviv.

    enfim, não me sinto capaz de começar a tentar imaginar o que está sendo feito direito e o que está sendo feito errado nessa guerra. posso apenas dizer que considero que a investida israelense é, por si só, legítima. mas até que ponto eles poderiam trabalhar em conjunto com o governo libanês para minimizar os danos à infraestrutura do país e à população que nada tem a ver com a história, aí já não faço idéia, mesmo.

    só espero que isso termine o mais rápido possível e com o melhor dos resultados.

    Comment by Solon — July 18, 2006 @ 5:58 pm

  3. entendo seu ponto de vista. mas nessa equação, que faz bastante sentido se olhada por essa ótica, fica de fora o fator do ódio estimulado por essa ação de Israel. na balança delicada onde se equilibra o terrorismo islâmico, estão pessoas que não entendem bem porque Israel está fazendo isso.

    cada vez que essas injustiças são cometidas (contabilize os mortos e feridos gravemente) a fragilidade a que estão expostas essas populações fica evidente, e novas fileiras de mártires podem ser recrutadas. acho que é disso, mais do que infra-estrutura e lideranças, que os grupos radicais se alimentam (meio baseado na teoria sociológica de Norbert Elias para os grupos radicais da alemanha).

    talvez uma ação de inteligência seja menos devastadora do que essa ação do exército, nesse sentido. porque enquanto Israel der a entender que quer matar todos os muçulmanos em seu entorno, é assim que as populações entenderão. e isso fornece a esses grupos, e à muitos outros que podem surgir, o “combustível simbólico” necessário para sua mensagem de ódio e martírio.

    viajei um bocado, mas acho que é por aí que eu penso :)

    Comment by Barba — July 18, 2006 @ 7:38 pm

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