June 23, 2006

já ouvi essa história antes

Motoristas de algumas regiões dos Estados Unidos são obrigados a usar, durante o verão, uma versão de gasolina que utiliza 10% de etanol. No Brasil, temos uma adição de 20% a toda a gasolina do país a título de baratear a mesma. Por lá, a desculpa é ecológica: em regiões densamente povoadas, o álcool ajuda a diminuir a emissão de poluentes e tornar o ar um pouquinho mais agradável.

Pois segundo o USA Today, essa adição de etanol (lá feito a partir de milho, ao invés de cana) à gasolina está causando um efeito bastante conhecido aqui no Brasil:

Ethanol prices are hitting record levels this week, adding to the cost of gasoline as the nation heads into the peak vacation driving season. (…) With ethanol prices so high, the 10% of ethanol in reformulated gasoline, as the blend is called, could add about 30 cents a gallon to the cost of gas, [Tom Kloza, analyst for the Oil Price Information Service] says.

Acontece que o pessoal por lá gosta de tirar férias e viajar com a família durante o verão, independente do preço da gasolina. Com o aumento do consumo da tal “gasolina reformulada” nessas regiões, aumenta a demanda pelo álcool e, adivinhem? Aumenta o preço da gasolina. Onde será que eu já ouvi essa história antes?

O mais engraçado é que a idéia de usar um combustível com 85% de álcool etílico e 15% de gasolina está sendo apresentada por vários grupos no país como uma alternativa que tornaria os EUA menos dependentes do petróleo estrangeiro. O problema é que, como qualquer brasileiro está cansado de saber, um motor a álcool gasta mais combustível para andar uma mesma distância do que um a gasolina.

Se apenas com a adição de 10% de etanol à gasolina o país já passa por problemas de excesso de demanda, imaginem o que aconteceria (mesmo com as novas 33 distilarias que estão sendo aprontadas) se 50% da frota de carros novos por lá fosse de versões flex como acontece por aqui?

November 23, 2005

energia daltônica

Ontem, a Folha Online publicava a seguinte informação:

O Brasil deve encarar o esgotamento de fontes hidrelétricas e também de petróleo como oportunidade para desenvolver seu potencial na área de agroenergia. A avaliação foi feita pelo secretário de Planejamento e Desenvolvimento Estratégico do Ministério de Minas e Energia, Márcio Pereira Zimmermann.

Na onda da energia verde, o Brasil aposta em especial no biodiesel feito a partir de óleo de soja para entrar no mercado internacional e diversificar as fontes de energia do país. Uma lei já aprovada obrigará a mistura de 2% de biodiesel ao diesel combustível a partir de 2008 e de 5% a partir de 2013. A previsão, como diz a matéria, é que a capacidade instalada atualmente não seja capaz de suprir sequer a demanda interna quando chegar 2008.

Enquanto isso, diz a New Scientist:

The drive for “green energy” in the developed world is having the perverse effect of encouraging the destruction of tropical rainforests. From the orang-utan reserves of Borneo to the Brazilian Amazon, virgin forest is being razed to grow palm oil and soybeans to fuel cars and power stations in Europe and North America. And surging prices are likely to accelerate the destruction.

Para quem não sabe, o governo Lula já alcançou o segundo lugar na história em termos de desmatamento da Amazônia, ficando atrás apenas do primeiro ano do governo de Fernando Henrique Cardoso. Maior responsável pelo desmatamento? A soja. Será apenas coincidência que a maior parte do desmatamento ocorre no estado do Mato Grosso, cujo governador Blairo Maggi é o maior produtor individual de soja do mundo?

September 26, 2005

tinfoil hats

Este é o tipo de coisa que, se tivesse sido publicada em um blog obscuro ou alguma lista de discussão bizarra, seria rapidamente considerada como trabalho do pessoal dos chapéus de papel alumínio. É verdade que o Guardian, seguidamente, não é muito mais confiável do que isso, mas a notícia parece legítima.

Golfinhos treinados pela Marinha norte-americana para atirar em terroristas e detectar minas marinhas. É surreal demais pra mim. Qual o próximo passo, tubarões brancos? (via Slashdot)

September 22, 2005

mate um gato

Emily Yoffe, a “colunista animal” da Slate, fala sobre ter sacrificado um gato sem as capacidades sociais necessárias para viver em família. Eu sempre fico feliz quando ouço essas histórias, não porque tenho algo contra gatos. Mas é bom saber que até alguém que chega ao despropósito de gastar “centenas de dólares em exames médicos”, levar o gato ao psicólogo e lhe dar Prozac, pode ter o bom senso de acabar com o sofrimento de todos.

E antes que alguém sucumba à tentação de deixar um comentário perguntando “se fosse contigo, tu gostaria de ser sacrificado só porque não consegue se acostumar a fazer xixi direito?”, é bom deixar uma coisa clara: pra mim, gato não é gente. Animais de estimação devem ser tratados como tal, não como filhos.

September 17, 2005

em tempo

Depois de uma semana de um firmamento plúmbeo, chuvas incansáveis e frio de renguear cusco, cadê aquele bando de gente reclamando que Porto Alegre não tem mais inverno de verdade?

September 13, 2005

muita calma nessa hora

But the scientific evidence currently is too thin to blame Katrina and other hurricanes on carbon dioxide emissions. And environmentalists may risk embarrassment if they exploit the theoretical link to promote their causes. (…) Most researchers, however, think that increase (in hurricanes’ severity and frequence in the Atlantic) has nothing to do with global warming. Those who study tropical cyclones say that Katrina was part of a natural cycle of angry storms that will batter North America for decades.

A Slate relembra o que quase todo mundo já está cansado de saber: culpar o aquecimento global pela onda de furacões no Atlântico Norte é puro wishful thinking. E aqueles que realmente temem o efeito das emissões de CO2 no clima planetário, talvez encontrem consolo em saber que existe uma solução potencial para o problema, mas falta quem acredite neste o suficiente para tentar solucioná-lo.

August 31, 2005

has it been three days already?

Bob Kennedy Jr. says Bush is to blame for Katrina. Daily Kos says Bush is to blame for deploying National Guard troops in Iraq, therefore undermining the relief effort.

On the other hand, Riding Sun, Instapundit, Andrew Sullivan, James Glassman, EU Rota and The New York Times (of all places), among many others, say it’s nonsense. As mr. Sullivan noted, “when the New York Times is debunking the idea, partisan liberals might want to reassess it.”

UPDATE: Mark Kleiman Mike O’Hare says:

The people of Bangaladesh have to live in a river delta because their whole country is one. Americans, by contrast, inhabit a roomy country and do not have to put themselves in the path of catastrophes that are completely predictable except as to date and time in order to make a quick buck in real estate or enjoy the view and a nearby swim for a few or many years. We need to have a serious think about whether it’s the duty of the rest of us to subsidize these choices.

I think that’s nonsense. First, if such reasoning were to be applied to the whole US, cities along the Tornado Alley, as well as pretty much all of California (where mr. Kleiman admitedly lives, despite it being “completely loony by the standards of reasonable people”), would obviously have to be considered first.

Also, one must take history into account. New York, Boston, Seattle, San Francisco, Los Angeles, Miami, Charleston (as well as major cities throughout the continent) are all by the sea for obvious reasons. Most of New Orleans now sits below sea level because it grew beyond the wetlands, and it made no political or economical sense to transfer the city somewhere else.

Finally, I’m quite certain there’s a lot of people who live in New Orleans out of necessity. Why would someone who was born there, who has family and history in the city, consider going through all the difficulties of moving to another town because of something that might happen, one day, someday?

August 30, 2005

hurricane porn

No wonder Fox’s hurricane coverage won the news-channel ratings sweepstakes: They know what the people want, and the people want news correspondents subjected to life-threatening winds and debris. There’s actually a clip reel on the Fox News site that is nothing but wet whipped men. It’s like weatherporn bukkake, only with less dignity.

Indeed. It was also kind of depressing to see FOX use such an event to praise the existence of the Department of Homeland Security. Apparently, we have terrorism to thank for New Orleans’ successful evacuation.

This, on the other hand, is absolutely hilarious.

Oh, and yes, I’m back to posting in english. Ocasionally, at least.

P.S.: as noted by Mirella and Parada, the New York Times has some pretty amazing photos of the disaster.

UPDATE: Be sure to check Slate’s cartoon roundup.

August 29, 2005

the shit hits the fan

É coisa demais para linkar por aqui. Basta conferir o seu portal de notícias predileto, mas façam um favor ao bom jornalismo: se quiserem notícias sobre o Katrina em português, vão à Folha Online, única que deu devida atenção ao fenômeno e fez uma cobertura à altura do que deve se desenrolar nas próximas horas. De resto, ficam meus votos para que esta bela cidade sobreviva ao dílúvio com o mínimo de danos possível.

Quem quiser relatos mais “diretos”, aqui tem um bom roundup de blogs que estão cobrindo o evento. O InstaPundit também está com bastante coisa boa, keep scrolling. E isso me fez pensar em uma coisa:

Let’s hope things go differently. If not, I put the over/under at three days before a Christian Right type comes forth with the idea that God destroyed New Orleans because it’s a den of sin.

E eu não dou três dias para que a esquerda e ambientalistas mundo afora culpem a destruição na mudança climática e na postura anti-Kyoto da administração Bush.

UPDATE: segundo a CNN, a parte Leste da cidade está submersa em 5 a 6 pés (em torno de 2 metros) de água, devido às bombas que pararam de funcionar. Parece que as piores previsões podem se provar corretas e a cidade de New Orleans corre o risco de virar o Lago New Orleans.

August 28, 2005

ciclone extra-tropical

“It’s going to look like a massive shipwreck,” says Maestri. “Everything that the water has carried in is going to be there. It’s going to have to be cleaned out— alligators, moccasins and god knows what that lives in the surrounding swamps, has now been flushed -literally—into the metropolitan area. And they can’t get out, because they’re inside the bowl now. No water to drink, no water to use for sanitation purposes. All of the sanitation plants are under water and of course, the material is floating free in the community. The petrochemicals that are produced up and down the Mississippi river—much of that has floated into this bowl… The biggest toxic waste dump in the world now is the city of New Orleans because of what has happened.”

Essa foi a previsão de um cientista, em 2002, para o que aconteceria na possibilidade de um furacão de categoria 5 atingir New Orleans. As estimativas de mortos variam entre 10 ou 20 mil, até impensáveis 100 mil. Ao que tudo indica, em cerca de 24 horas, todas estas previsões serão postas a prova.

P.S.: no momento em que escrevo este post, apenas a Folha Online parece ter se dado conta do desastre que está por acontecer, e resolveu chamar a história de manchete do portal. Terra, Ig, Estadão e UOL, entre outros, preferem noticiar a saída do Corinthians da liderança do campeonato brasileiro. Quero ver se, depois de a cidade ser obliterada e uma dezena de milhares de pessoas morrerem, não terá cobertura especial em todos os meios, à tsunami na Ásia.

August 10, 2005

save the whales

Eu poderia elaborar um longo post sobre este debate na Foreign Policy, entre Carl Pope e Bjorn Lomborg. Nele, colocaria vários links sobre o controverso livro de Lomborg (que ainda encontrarei por um preço aceitável) e as discussões por ele levantadas. No entanto, é muito mais fácil mandá-los ler todo este post do Hit & Run.

June 30, 2005

tá calor, tá calor

A New Scientist noticia que, segundo um pesquisador do Max Planck Institute for Chemistry, na Alemanha, o problema do aquecimento global pode ser pior do que se imaginava. Diz ele que os gases que poluem a atmosfera também têm servido como uma proteção à ação do Sol, diminuindo o seu impacto sobre o planeta.

No entanto, com a diminuição desses gases e a conseqüente limpeza atmosférica, o caminho estará livre para termos um crescimento de até 6°C na temperatura média da Terra até 2100. Isso se as florestas e algas continuarem a absorver o CO2 no grau atual, caso contrário, pelas previsões mais pessimistas, esse aumento pode chegar a incríveis 10°C.

Um aspecto interessante da pesquisa, no entanto, é que os três pesquisadores (Meinrat Andreae, Peter Cox e Chris Jones) responsáveis pelo estudo em questão são ligados ao Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão da ONU que lida com questões climáticas. Instituto cujo vice-presidente, o russo Yury Izrael, diz que as mudanças no clima do planeta não são um perigo e que não há provas de que o aquecimento global esteja diretamente ligado a atividades humanas.

nós já sabia

Com um ano de atraso, e depois de dois dias de reunião, meteorologistas brasileiros, americanos e australianos chegaram à brilhante conclusão de que o Catarina era um furacão. Os pobres meteorologistas brasileiros disseram não ter equipamentos adequados para prever este tipo de fenômeno.

Pra começo de conversa, eles não precisam ter esse tipo de equipamento. Basta-lhes confiar em quem os tem, ou seja, no NOAA, que já avisava tratar-se de um furacão quando o Catarina ainda estava bem longe da costa brasileira. Mesma coisa que fez o britânico Met Office.

No Brasil, a Rede de Estações de Climatologia Urbana de São Leopoldo (RS), o Centro de Informações de Recursos Ambientais de Santa Catarina (Climerh), a Climaterra (SC) e o Sistema Meteorológico do Paraná (SIMEPAR) também emitiram avisos de que se tratava de um furacão. Baseada nas avaliações do meteorologista Eugenio Hackbart, da Climatologia Urbana, a Defesa Civil do RS também emitiu avisos e acompanhou o fenômeno em tempo real. Já a Secretaria Nacional de Defesa Civil estava fechada, porque era fim de semana, e o resto dos órgãos nacionais dizia tratar-se de um ciclone extra-tropical, e que a população não precisava se preocupar.

O resultado, todos sabemos. Teve gente que resolveu ir para o litoral, aproveitar o fim de semana de calor, e acabou presenciando o fenômeno da pior maneira possível. Navios naufragaram, gente morreu, milhares ficaram desabrigados.

Mas o pior ainda estava por vir. Assustados com algo que, segundo toda a imprensa e órgãos oficiais do país, era um “ciclone extra-tropical”, a população começou a ter pânico de qualquer espécie de fenômenos do tipo. O problema é que ciclones extra-tropicais, ou sistemas de baixa pressão, são corriqueiros no litoral brasileiro durante o verão. Assim o foram por séculos, sem que nunca se tenha visto algo parecido com o Catarina. Ou seja, fizeram a população começar a ter medo de chuva.

Quando ainda trabalhava no Terra, tive a oportunidade de falar brevemente com o Ronaldo Coutinho, do Climaterra, considerado o cara que primeiro disse que o Catarina era um furacão. Estava lhe consultando sobre os tornados que haviam atingido Criciúma. Ele foi muito prestativo, e no fim da “entrevista” me disse para ser cuidadoso com o que dissesse, porque ele já estava cansado de pessoas ligando em pânico para ele a cada vez que a mídia noticiava um aviso de ciclone emitido pela Defesa Civil.

O mais indignante de tudo isso é que o Catarina não foi um fenômeno rápido e passageiro. Foi acompanhado por mais de um dia através de imagens de satélite, com boletins em rádio e possibilidade de ser devidamente noticiado pelos jornais (que, se bem me lembro, manchetaram com alguma notícia econômica de então). Se tivessem, desde o começo, tratado o assunto como deveria, muito barulho teria sido evitado.

Se toda a mídia tivesse ouvido os especialistas (deviam saber que a opinião do NOAA é suficiente em casos de furacão) e chamado o Catarina de furacão (que, eu sei, é um tipo de ciclone, mas um específico o suficiente para merecer um nome à parte), poderiam ter prevenido muita gente para o que estava por acontecer. E no futuro, teriam evitado que muita gente ficasse com medo de um fenômeno meteorológico para lá de corriqueiro.

E se não acreditam em mim, façam o favor de ler o sr. Eugenio Hackbart. Sinceramente, jamais vou conseguir expressar minha indignação com o papel de palhaço que fez (e continua a fazer) a mídia brasileira em relação a algo tão sério. E o pior é que, pela minha breve experiência com o assunto, ninguém aprendeu a lição.

June 10, 2005

abraçadores de tubarão

“Se consumidores insistirem na sopa de barbatana de tubarão nós vamos concordar em servi-la para eles, mas com um folheto contendo informações sobre como as barbatanas são colhidas”, disse Irene Chan, porta-voz da Disney, à AFP.

Isto é, talvez, a coisa mais ridícula que eu ouvi este ano. Reconhecer que a maneira com que são colhidas as barbatanas é cruel, mas ainda assim manter a decisão de servir o prato, seria uma atitude corajosa. Assim como restaurantes que servem foie gras, ainda que seja difícil pensar em maneira mais cruel para matar um ganso.

Aceitar a reclamação dos grupos ambientalistas, procurando a opinião de ONGs respeitáveis, também é uma atitude louvável, até porque esse parece um dos casos cada vez mais raros em que eles estão cobertos de razão.

Agora, esse discurso com tom de “nós não temos culpas se nossos fregueses são um bando de bárbaros asiáticos e insistem em pedir esse prato”, junto com a promessa de servir um folheto educativo para quem quiser provar a iguaria, é algo tão hipócrita que chega a me deixar irritado. E eu não sou de ficar irritado com esse tipo de coisa.

A Disney merecia um duplo boicote. Se eu fosse me casar em Hong Kong, e pretendesse servir sopa de barbatana de tubarão no jantar, o último lugar em que eu faria isso seria neste novo resort da Disney. Já que vão servir o prato, que tenham o colhão de assumir a decisão.

E se fosse um ambientalista, eu participaria de todo tipo de protestos possível contra o resort. Já que reconhecem que é uma crueldade, e estão assim tão interessados em educar seus clientes, que se recusem a servir o diabo da sopa.

Alguém avise o Bob Geldof: descobri uma causa justa para a próxima edição do Live Aid. Podiam até fazer uma música reunindo inúmeros artistas, à lá Sun City.