August 16, 2006

inversão dos tratores

Segundo matéria no caderno de cultura da Folha de S. Paulo de hoje,

Um novo filme baseado em um de seus livros mais importantes, duas cinebiografias e o lançamento de duas de suas principais obras no Brasil revigoram o interesse pelo trabalho do escritor americano Philip K. Dick (1928-82)(…)

A Scanner Darkly, principal mote da matéria em questão, é a quarta adaptação de uma história do autor nos últimos quatro anos. Para manter a média, no ano que vem deve ser lançada mais uma. E como bem aponta o repórter, duas cinebiografias sobre K. Dick estão sendo produzidas, uma delas com aval da família.

Particularmente, sempre achei seus trabalhos excessivamente permeados de um pessimismo tecnofóbico. Mas em tempos de escutas telefônicas ilegais e oficiais de segurança ameaçando jogar fora 12 anos de estudo de um professor, só por medo de seus três flash drives, é fácil entender por que suas histórias parecem tão atuais.

Por isso, acho tão estranho o repórter da Folha falar que o filme de Linklater, e os novos lançamentos da editora Aleph, “revigoram o interesse pelo trabalho” de Philip K. Dick. Pelo contrário, vejo estes lançamentos como um claro reflexo desta redescoberta do escritor, como uma conseqüência desta tendência.

July 16, 2006

Dark Side of Oz

Lembram da velha história da sincronicidade do clássico “Dark Side of the Moon” e do filme Mágico de Oz? Para conseguir o efeito esperado era necessário um certo trabalho para que a primeira música começasse durante o segundo rugido do leão da MGM, e para quem tentasse a façanha com um CD era preciso apertar o pause no meio da história para simular a troca de lados do vinil. Mas todos que tentavam diziam ficar impressionados com o efeito (não sei se do disco ou da maconha que fumavam para melhor apreciar o evento).

De qualquer maneira, bendita seja a Internet, porque alguns cidadãos se deram ao trabalho de sincronizar as músicas e o filme e colocar o resultado à disposição de qualquer pessoa com acesso ao YouTube e Google Video. Portanto, curiosos, direcionem seus browsers ao primeiro para uma versão de 7 minutos, ou então para o segundo para assistir à versão completa de 43 minutos.

(via LAist)

July 12, 2006

maldição

Que sou chato, sabem todos que me conhecem. Com os anos, descobri que não sou tanto quanto costumam pensar, pois pareço ter chegado a um nível em que mesmo comentários inofensivos são tomados por crítica apenas por serem de minha autoria. A intencional baixa qualidade dos distribuidores de DVDs no Brasil, no entanto, é um dos assuntos que sempre me tiram do sério e, por isso, rendem efetivas reclamações.

Magnólia, um de meus filmes prediletos, foi originalmente lançado nos Estados Unidos em versão com dois discos - um com o filme, outro com um vídeo-diário e uma série de extras -, em uma bela embalagem digipack e acompanhados de um excelente livreto. No Brasil, temos que ficar felizes de que ao menos foram mantidas a imagem widescreen e a trilha em Dolby Digital 5.1, já que o segundo disco e a trilha de comentários do diretor não existem, e a horrorosa embalagem plástica padrão serve apenas para guardar o DVD em questão e carregar uma capa horrorosa.

Felizmente, a importação de DVDs através de lojas como a Amazon não era nada demais à época, de modo que tenho a versão norte-americana do filme. Não é o caso, no entanto, da obra-prima As Coisas Simples da Vida, do taiuanês Edward Yang. Mesmo a versão lançada nos EUA sofria de uma imagem que não estava à altura da ótima fotografia do filme, e a versão brasileira ainda teve a mesma cortada do widescreen original para um formato de tela inteira.

Pois eis que agora, em pleno desemprego e com as finanças profundamente abaladas, descubro que o filme recebeu um tratamento à altura de sua qualidade: foi lançado pelo selo da Criterion Collection. A imagem passou por um processo de restauração e nova transferência em alta definição para mídia digital, e foram adicionados alguns extras e um livreto de 20 páginas com um ensaio do crítico Kent Jones e notas do diretor Yang.

Se tivesse que listar meus três filmes preferidos, em nenhuma ordem específica, As Coisas Simples da Vida certamente estaria entre eles. Como já tenho o DVD dos outros dois - Magnólia e Laranja Mecânica -, a compra deste lançamento é certa, ainda que vá demorar para eu poder me dar ao luxo de desembolsar os mais de cem reais que deve custar.

Toda essa lenga-lenga, além de tentar sensibilizar algum leitor que possa querer me dar um presente, é para recomendar a todos que ainda não o fizeram que dêem um jeito de assistir a esse filme fantástico. Mesmo que naquela versão horrorosa lançada aqui pela Europa Filmes (e que está sendo vendida pela bagatela de R$ 18,90 no Submarino).

March 21, 2006

cada dia pior

Por falar em paranóia de direita, está tendo uma discussão deveras divertida lá no blog do Janer Cristaldo sobre o corte de uma cena do filme “Adeus, Lênin” transmitido pela rede Telecine. Eu sempre achei estranha a capacidade deles de sincronizar razoavelmente o horário de início de filmes com metragens completamente diferentes em seus cinco canais, e não duvidaria se alguém descobrisse que a prática é comum (inclusive já tive impressão semelhante algumas vezes).

De qualquer jeito, o engraçado é ver o corte taxado de “censura” ou então conclusões como “não podem alegar extrema violência, nem cenas de putaria, então resta apenas controle ideológico”. Afinal de contas, não há outra razão para se cortar o pedaço de um filme que não esses três. Mas o mais engraçado é ver que toda esta indignação foi causada pelo corte de um pôster de Che Guevara.

March 5, 2006

a praga da mimese

Imaginem um pintor frustrado que, para provar seu domínio sobre a técnica, resolve pintar uma recriação fidelíssima de alguma famosa fotografia de Robert Capa. Imaginando que ele tenha sucesso em sua empreitada, é difícil imaginar que alguém vá dar maiores importâncias artísticas ao feito. Seu trabalho será, apenas, uma demonstração de invejável virtuose técnica.

Pois é mais ou menos assim que tenho me sentido com a enxurrada de cinebiografias produzidas por Hollywood ultimamente, bem como a sua larga aceitação pela crítica especializada ou não. Em especial, estou cansado de ouvir como atores que se prestam a, em essência, mimetizar as manias e maneirismos da pessoa a quem estão representando, merecem todos os prêmios do mundo.

Na cerimônia do Oscar que acontecerá hoje, 60% dos indicados das quatro principais categorias (melhor filme, direção, ator e atriz) são por cinebiografias. Em 2005, apenas Clint Eastwood foi indicado como melhor ator por um papel fictício, e sem chance alguma de levar a estatueta que acabou nas mãos de Jamie Foxx, que praticamente se transformou em Ray Charles.

Neste ano, a estatueta de melhor ator deve ir para Phillip Seymour Hoffman, que parece ter encarnado Truman Capote. E é difícil imaginar que Felicity Huffman ou, menos ainda, Keira Knightley tenham muita chance na categoria de melhor atriz.

Alguém poderá dizer que a cinebiografia é um estilo válido e necessário para recriar a força e a vida de personagens importantes de nossa história, com um impacto e uma proximidade que jamais seriam possíveis com um documentário. E eu concordaria em genêro, número e grau.

Mas lembraria que, acima de tudo, estamos tratando de um filme e, portanto, de uma forma de arte. E como tal, eu espero mais do que apenas o domínio completo da técnica, eu espero que esta seja utilizada para criar algo novo. Por isso, tenho muito mais respeito pelo Johnny Cash de Joaquin Phoenix, por exemplo, que optou não por tentar imitar o lendário homem de preto, mas por criar sua própria versão do cantor.

E também por isso torço para que, na noite de hoje, o Oscar de melhor ator vá parar nas mãos de Heath Ledger, em uma impressionante atuação injustamente soterrada pela temática homossexual de Brokeback Mountain e pelas conquistas técnicas de seus colegas em imitar ícones da cultura ocidental. Brokeback Mountain que, mesmo não tendo achado fora de série, ficarei feliz de ver recebendo o prêmio máximo nesta noite.

January 23, 2006

2046

O Láudano disse que não é um filme para quem gostou de Lost in Translation. Já o Firpo, fã do diretor mais mala da face da Terra, diz que é o filme mais chato a que já assistiu, algo reservado para “masoquistas empedernidos“. Discordo de ambos.

Não sei quais foram as razões para a comparação do Láudano, mas também vejo semelhanças entre os temas das duas obras. Tédio, intensas paixões platônicas e relações mancas que não chegam a lugar nenhum. E enxergo, igualmente, diferenças fundamentais na maneira com que os assuntos são vistos: meiga e otimista naquele, cínica e um pouco pessimista neste. Nada disso, no entanto, me impediu de admirar e gostar bastante de ambos os filmes.

Do Firpo, então, discordo de maneira veemente. Posso concordar que o filme, em certos momentos, se parece apaixonado demais consigo mesmo, e exagera na duração de alguns takes ou situações. Mas certamente já vi coisas muito piores (a começar por Ondas do Destino, esse sim o filme mais chato a que já assisti), além de que o ritmo lento se encaixa muito bem com o clima da história e dá força à aparente falta de direção dos personagens.

No fim das contas, achei 2046 um grande filme, ainda que não compartilhe de todo o entusiasmo do sr. Ferrari. São bons personagens, e desconfio de quem disser não se importar com o destino de pelo menos um deles. A fotografia é lindíssima, e por mais pedante ou afetado que possa parecer o roteiro, tudo é costurado de maneira inteligente e agradável (bem mais do que se pode dizer de outros filmes igualmente pretensiosos).

Um ótimo tratado sobre o amor, que recomendo a qualquer pessoa que goste de um bom drama e não tenha medo de filmes lentos. Ah, sim, e a trilha sonora é das melhores que já ouvi em muito tempo.

December 7, 2005

filhos de Adão e Eva

As Crônicas de Nárnia conseguiu uma proeza rara, para mim. Por um lado, fui ao cinema esperando uma versão infantil do Senhor dos Anéis, mas descobri que o mundo de C.S. Lewis é bem mais que isso. No entanto, saí do filme com a nítida sensação de que havia ali material para fazer deste bom filme algo excelente. Ou seja, fiquei tão agradavelmente surpreso que achei o filme apenas bom.

Num breve making of exibido antes do filme, boa parte dos comentários giravam em torno da questão dos efeitos especiais. Segundo o diretor, Andrew Adamson, seria impossível filmá-lo cinco anos atrás. Sou obrigado a concordar, mas também é preciso dizer que ainda que tenha usado as mesmas ferramentas criadas para produzir a trilogia do Senhor dos Anéis, e tenha conseguido algo inédito ao juntar as três maiores empresas de efeitos digitais do mundo num mesmo filme, Narnia decepciona nesta parte.

Alguns animais, como os castores, parecem ter saído de algum desenho como Shrek. Alguns cenários com tela verde são óbvios ao ponto do desagradável. E embora Aslan seja um leão perfeitamente crível e imponente, eu não consigo me conformar que ele tenha a voz do Liam Neeson. Não que o irlandês não tenha uma voz adequada para o papel (ainda que eu preferisse Jeremy Irons ou James Earl Jones), mas os trejeitos e movimentos do animal não combinam com o som que sai de sua boca.

Outros dois casos são de atores que, para mim, simplesmente não convencem em seus papéis. Não sei se é por falta de tempo de desenvolver o personagem (talvez com a filmagem da história imediatamente anterior à esta isso se resolva) ou por medo dos criadores de deixar um filme para crianças excessivamente violento, mas em nenhum momento a Feiticeira Branca parece tão amedrontadora como deveria.

Já o caso do garoto William Moseley é, simplesmente, de não ser bom o suficiente para o papel. Enquanto tem que ser o irmão mais velho que subitamente se vê obrigado a cuidar do resto da família, vivendo naquele desagradável limite entre a infância e a maturidade, ele é excelente. Mas na hora de, na batalha final, fazer a transição de garoto para homem, de Peter Pevensie a rei Pedro, o Magnífico, ele simplesmente não consegue e permanece sendo apenas um garoto.

A nítida falta de conforto dos dois atores com as espadas também é gritante, e faz com que algumas cenas de luta pareçam dignas do primeiro filme do Rocky. E por falar nisso, a batalha final também parece um pouco corrida demais. Ela chega muito rápido e acaba ainda mais. O filme certamente poderia se beneficiar de uma meia hora a mais de duração.

Tudo isso dito, Nárnia é muito mais do que apenas um filme para crianças. Não chega a ser algo que transpareça tanto cuidado e desenvolvimento como O Senhor dos Anéis, mas está anos-luz à frente de Harry Potter em termos de qualidade da narrativa. À exceção dos efeitos especiais, estou disposto a creditar o resto à preocupação dos criadores em não dar um tom muito pesado ou violento a um filme de crianças. Mas é difícil não pensar em quanto este poderia ser um grande filme.

November 29, 2005

Freetz Lang

Uma boa pedida para quem gosta de cinema e tem banda larga (ou não se importa de deixar o telefone ligado por alguns dias): o Internet Archive está disponibilizando M., O Vampiro de Dusseldorf para download gratuito. Infelizmente, não há informação de qual das várias versões do filme eles colocaram à disposição. De qualquer jeito, quem quiser encarar os 3.8 GB de download, sinta-se à vontade.

November 21, 2005

da monografia

A grande maioria das faculdades gaúchas exige a produção de uma monografia como trabalho de conclusão de curso, e a Comunicação da UFRGS não se escapa desta regra. Não é de se estranhar que, ao chegar a hora de produzir o trabalho, todos comecem a reclamar da sua inutilidade para a profissão que pretende seguir, que muito melhor seria produzir um grande trabalho de exploração jornalística, um elaborado trabalho publicitário, ou coisa que o valha.

Pois se não fosse pela minha monografia, jamais saberia que O Iluminado, de Stanley Kubrick, dura 117:04 minutos, sem os créditos finais. Que está separado em 8 partes, afora os créditos iniciais. E que pode ainda, ser separado em 22 seqüências compostas por um total de não menos que 262 enquadramentos distintos (sendo que a 21ª e principal seqüência é responsável por 76 desses enquadramentos, ao longo de 21 minutos e 16 segundos).

Tá, e daí? Ah, é isso que preciso explicar em umas 50 tediosas páginas, para tentar convencer três professores de que posso ser aprovado nesta faculdade da qual tanto falo mal. Mas que ninguém venha me dizer que foi um trabalho que não serviu para nada.

November 17, 2005

arram

Sou famoso entre amigos e conhecidos por ser do contra. Me juntem com um bando de estudantes proto-comunistas e depois de pouco tempo todos acharão que sou um conservador que anda com um livro do Adam Smith na mochila (tem sido assim desde que entrei na Fabico). Se, por outro lado, me colocarem em um ambiente conservador, de raivosos anti-petistas, vai ter gente perguntando por que eu não ando com um bottom do PSTU (uma descrição razoável do meu segundo grau e meus quatro semestres e meio na FaCA).

No entanto, este não é um fenômeno particular, todo mundo sofre de um surto de ser do contra de vez em quando. Todo mundo se enerva com supostas unanimidades e começa a tentar irritar todos que gostam ou apóiam a dita cuja. Mas quando o fazem só eventualmente, talvez pela falta de prática costumam parecer apenas bobos. É o caso desta resenha do Ticiano Osório sobre o ótimo Marcas da Violência.

Não que por ter gostado do filme eu não aceite opiniões contrárias. Uma rápida visita ao Rotten Tomatoes é o suficiente para encontrar resenhas desfavoráveis que posso respeitar. Mas uma coisa é não gostar de um filme, outra é ser bobo:

Pois o teste que se propõe é tirar o nome de Cronenberg dos créditos: será que não é só verniz? Será que, se tivesse como diretor um daqueles que figuram em canais como o Telecine Action, comandando Charles Bronson ou Steven Seagal, estaríamos tendo essa discussão? (…) Não fosse o talento dos atores, os personagens permaneceriam bidimensionais. Não fossem alguns momentos em que a câmera de Cronenberg esquece da trama e foca a transformação - ou a contaminação - provocada pela violência nesses personagens, como a mistura de repulsa e atração em uma cena de sexo, a narrativa não poderia ser mais usual.

Ou seja, se o diretor fosse um qualquer, e os atores fossem ruins, o filme provavelmente não seria mais que medíocre e não teria recebido atenção dos críticos mundo afora. Portanto, o filme “está sendo superestimado”. Hmmm.

November 10, 2005

jesus, joey!

Há algum tempo atrás falei sobre a boa leva de adaptações de HQs que andavam chegando aos cinemas ultimamente. Pois nesta quarta-feira saí do cinema com a nítida sensação de ter assistido à melhor de que tenho notícia.

Marcas da Violência é provavelmente a produção mais coesa que David Cronenberg já filmou. Não há aqui nenhum toque de surrealismo, nenhuma premissa fantástica para suscitar a trama. Um pacato pai de família em uma idílica cidade interiorana dos EUA reage a um assalto à sua lanchonete, uma noite, e acaba transformado em herói nacional pela mídia. Logo surgem alguns mafiosos dizendo terem contas para acertar com o homem, que por sua vez diz nunca tê-los visto mais gordos.

Não li a graphic novel de onde esta história foi retirada, mas a julgar por descrições de terceiros, esta premissa é usada para desencadear um exagerado banho de sangue como só HQs (e o Robert Rodriguez) sabem fazer. Em sua encarnação cinematográfica, no entanto, o que temos é um estudo de caráter e um típico thriller psicológico, onde pouco importa a violência física, mas sim a violência que é levada para as relações de uma família até então perfeita.

Inclusive, é em mostrar o quanto a família Stall é perfeita que Cronenberg perde um pouco a mão. Verdade que há algum tempo não via o sexo tratado de maneira tão agradável e sem frescuras como neste filme, mas o tempo gasto em seu início para mostrar o cotidiano ordinário desta família absolutamente funcional é maior que o necessário. Mas quando se pensa em olhar o relógio, Ed Harris e seus capangas entram na lanchonete de Tom (que segundo eles se chama Joey), e o filme entra nos trilhos.

É difícil não ficar nervoso ou apreensivo enquanto se vê o efeito devastador do súbito choque de violência sobre esta família. E é impossível não ficar espantado com a qualidade das performances de todos os atores envolvidos, notadamente Viggo Mortensen, Ed Harris e William Hurt. Este, em especial, aparece por uns cinco minutos apenas, mas é tudo que precisa para se tornar o personagem mais memorável da história.

E mais fantástico é assistir a tudo isso e se lembrar que foi baseado em uma HQ preocupada com sangue e guerras entre mafiosos. Ainda bem que John Olson resolveu fazer um roteiro pouquíssimo fiel à fonte original, e que Cronenberg só ficou sabendo da existência da graphic novel depois de iniciar a produção, e ao lê-la só se convenceu de que não era nada daquilo que queria filmar.

October 31, 2005

dupla personalidade

O Jardineiro Fiel é um filme esquizofrênico. Por um lado, é um filme de espionagem inteligente, com um roteiro sem reviravoltas telegrafadas ou óbvias. Por outro, é uma espécie de peça panfletária sobre as mazelas que atingem o continente africano. E embora isso não seja um demérito por princípio, a crise de personalidade aqui acaba trabalhando contra o filme, que não desenvolve plenamente nenhuma de suas histórias.

Quando começamos a criar simpatia pelo casal Quayle, pelas desconfianças de um marido cada dia mais ignorante do trabalho de sua mulher, o filme dá uma guinada para o lado de mostrar uma África pobre, de aidéticos sendo utilizados como cobaias por grandes corporações farmacêuticas. E quando parece que a intriga e a ação vão começar, voltamos às dificuldades emocionais por que passa o marido cuja mulher foi brutalmente assassinada em um fim de mundo africano.

É difícil saber o quanto dessa esquizofrenia estava no roteiro (ou mesmo no livro de John LeCarré) e o quanto é obra das predileções do diretor Fernando Meirelles por contar histórias fragmentadas, onde passado e presente se entrelaçam conforme o andar da carruagem. Mas a verdade é que saí do cinema sem ter conseguido, em momento algum, me emocionar com qualquer dos fios principais da história.

O fato de que, ainda assim, Jardineiro é um filme acima da média e certamente merecedor do preço do ingresso, é demonstração da qualidade geral dos filmes que têm chegado às nossas salas de cinema ultimamente. Em outros tempos diria que o melhor seria esperar para assisti-lo em DVD.

Quanto às inevitáveis comparações com Cidade de Deus, sou da opinião de que há semelhanças nítidas, especialmente na fotografia. O uso constante da câmera na mão, em geral abusando do close e de enquadramentos baixos para acentuar a sensação de claustrofobia estão lá, bem como o visual lavado e granulado da película. Mas, assim como na obra anterior de Meirelles, tudo feito com excelente qualidade técnica.

O que me parece fato indiscutível é que o brasileiro é um excelente diretor de atores, o que deixa-me esperançoso de que uma história mais simples e focada em personagens ainda venha por aí. Em Cidade de Deus ele já havia feito milagre, transformando uma trupe de desconhecidos em atores de primeira linha. Neste Jardineiro não há uma atuação que possa ser criticada, especialmente a do casal de protagonistas, Ralph Fiennes e Rachel Weisz.

No fim das contas, é uma opção mais do que digna para uma ida ao cinema no fim de semana, ainda mais com a quantidade de porcaria e seqüências insuportáveis (Jogos Mortais 2? alguém viu o primeiro?) que parece ter tomado conta do cinema norte-americano ultimamente. Mas nota-se potencial para que fosse um filme bem melhor.

September 13, 2005

um pingüim muito louco


Quando assisti a La Marche de l’Empereur, pensei em escrever uma resenha por aqui. “Só um louco verá, por uma hora e meia, o absurdo ritual de acasalamento e reprodução dos pingüins imperadores e sairá (do filme) ainda acreditando em intelligent design“, diria o início do lead. Pois imaginem a minha surpresa ao ler isso:

At a conference for young Republicans, the editor of National Review urged participants to see the movie because it promoted monogamy. A widely circulated Christian magazine said it made “a strong case for intelligent design.”

Como é? Parece que, realmente, as pessoas usam o que está a seu alcance como forma de confirmar suas idéias pré-concebidas. Não que eu pense que este belo filme seja prova evidente da evolução “acidental” das espécies, mas imaginar que algo tão absurdo e ilógico quanto a reprodução destas aves é prova da existência de um Ente maior é muita boa vontade.

Mas, independente de crenças pessoais sobre o surgimento da vida na Terra, a Marcha é altamente recomendável. Narrado como se pelos próprios pingüins, é mais um episódio na aproximação dos documentários da linguagem do cinema de ficção. A fotografia é belíssima, e o texto capaz de nos fazer acreditar que aquelas aves de minúsculos cérebros realmente estivessem nos contando sua história.

Os mais emotivos, ou que se derretem por animais fofinhos, vão chorar e torcer enquanto os pingüins encaram meses de jejum, longas marchas pelo gelo interminável da Antártida e o absurdo malabarismo de manter um ovo entre as pernas e as penas para protegê-lo do tenebroso frio. Os menos emotivos irão ficar impressionados em como um documentário pode ser, também, uma excelente história de vida e morte.

Os conservadores irão lamentar que ainda não bateu a marca de Fahrenheit 9/11 como documentário de maior bilheteria da história. Marxistas irão reclamar da falta de menção ao impacto do aquecimento global sobre a reprodução e população dos imperadores. E chatos irão comentar sobre a falta de maiores informações sobre os mistérios que envolvem o comportamento dos simpáticos pingüins. Mas dificilmente alguém achará que não valeu o ingresso.

August 4, 2005

basin city

Dark Horse Comics

Gostei de Sin City. Primeiro, por ter transferido a linguagem dos quadrinhos para o cinema com fidelidade e qualidade que nunca tinha visto antes. Segundo, por ser um excelente filme noir, com diálogos engraçados e personagens simpáticos.

Razoável número de críticos, como no New York Times, dirão que o filme é raso. Não ousaria contrariá-los, mas isso jamais foi impedimento para divertir-me no cinema. Ao contrário de Manohla Dargis, não tenho reclamação quanto ao ritmo do filme, ou o aspecto caricatural de seus personagens.

Não quer dizer que não tenha minhas críticas. Acho, por exemplo, que a seqüência da guerra das prostitutas, além de ser mais boba que as outras, se arrasta por mais tempo do que o necessário. Pelo que li e ouvi, parte da culpa é do material original, e parte da culpa é de Rodriguez (ou Tarantino, que teria dirigido o episódio em questão), por não ter sabido cortar coisas desnecessárias.

Depois de ver o filme, li um livro da série de quadrinhos pela primeira vez. “The Yellow Bastard” é como um storyboard do filme, com muita gordura que, realmente, não precisaria ir para a tela. Acho que, no fim das contas, mr. Rodriguez fez o possível considerando que Frank Miller era co-diretor.

Pior, no entanto, são imbecis como Arnaldo Jabor que, imbuídos de moral ratzingeriana, atacam Sin City por sua excessiva violência. Ganhando o que ganha, e com o tempo que deve ter de sobra, o jornalista e ex-cineasta poderia ter se dado ao trabalho de alugar alguns filmes noir da década de 40 e 50 antes de desnudar sua ignorância para toda uma nação.

É triste que tanta gente tenha atitudes como essa a ponto de Miller e Rodriguez terem que defender sua obra. Mas a julgar pelo grande número de críticas favoráveis, bem como o fato de que uma seqüência já está em fase de pré-produção, tais críticos não causaram muito impacto.

August 2, 2005

vale mesmo

Nunca fui muito com a cara do José Dirceu. Ter abandonado a mulher não é o tipo de coisa que eu prezo na biografia alheia, e embora não tenha problema algum em relevar o passado guerrilheiro de quem quer que seja, eu acho difícil engolir o clima de segredo que envolve sua ida a Cuba.

Ao ver Entreatos, o belo documentário de João Moreira Salles, há quase um ano, reforcei minha birra. Dirceu passa o filme inteiro conspirando por trás das câmeras, sempre desconfiado de todos que lhe cercam.

Em tempos de crise política, Luiz Antonio Ryff resgata o documentário em NoMínimo. Quem ainda não assistiu ao filme, deve sentir-se ainda mais tentado a fazê-lo. Quem já o fez, há de ficar ansioso pelo lançamento em DVD, para poder rever muita coisa e constatar o envelhecimento de que fala o colunista.

(re)começo

Uma das poucas vantagens de arranjar-se uma fonte de renda, ainda que temporária, é poder dar-se ao luxo de freqüentar cinemas ou comprar CDs. Assim, acompanhado de minha namorada cinéfila, tenho posto em dia minha lista de filmes assistidos.

Batman Begins é, realmente, um belo filme. Não deixa nada a desejar em relação a Sin City no que se trata de transferir uma HQ para o cinema. E eu, pessoalmente, acho a história do bilionário atormentado mais interessante.

Concordo com absolutamente tudo que o Francisco disse sobre os poucos defeitos do filme. E, tendo ido assistir ao dito cujo tanto tempo depois de sua estréia, tive uma grata surpresa ao ver Gary Oldman cast against character no papel do sargento/tenente Gordon.

É um grato recomeço para a franquia Batman, que nunca recebeu o tratamento que devia. Os filmes de Tim Burton sempre foram excessivamente góticos e dark, e os de Joel Schumacher prefiro esquecer que existem.

E é mais um título na excelente onda de adaptações de HQs que também se preocupam em ser bons filmes, junto de X-Men, Spider-Man e, obviamente, Sin City. Vamos ver se Bryan Singer faz o mesmo por Superman. Só não levo muita fé nisso.

P.S.: para deixar o Mojo feliz, também é bom mencionar Ghost World e Office Space (tá, este é desenho animado, não HQ).

July 27, 2005

nuts

Eu não entendo o Rupert Murdoch. O cara funda um canal de notícias reacionário e absolutamente caricato, ao mesmo tempo que faz seu canal de entretenimento financiar este filme. Um belo filme em tempos de Valerie Plame e Karl Rove, por sinal.