Eu tinha escrito este post como um comentário para este post do Paulo, lá no F.Y.I. No entanto, o sistema de comentários está temporariamente fora do ar (inclusive, tenho notado o Blogger extremamente instável nos últimos dias) e o dito cujo ficou tão grande que eu resolvi colocá-lo por aqui mesmo. Mas recomendo a quem se interessar que leia o post original.
Também aproveito o maior número de leitores do meu blog que, de fato, entendem alguma coisa de teoria da comunicação, e que têm bem mais experiência do que eu com o dia-a-dia em uma redação.
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cisco:
“Solon, óbvio que há a tendência de relatar notícias ruins. Sobre qualquer assunto. Boas notícias recebem pouca atenção independentemente de quem tem a ganhar com elas.”
fato. isso também explica, de maneira simples e sem conspiracionismos, a manchete que o Paulo rapidamente taxou de “sofismo da esquerda” num post anterior.
paulo:
“Vai la na pesquisa do new media e veja a secao sobre blogs. O numero de liberais ainda eh maior.”
desculpa a preguiça, mas ela leva em conta o quão influentes são os blogs? entre os grandes blogueiros (Glenn Reynolds, Eugene Volokh e cia.), a minha impressão nada científica é de que são a maioria conservadores. fenômeno comentado pelo próprio Reynolds uma vez, como sendo uma natural contraposição ao domínio liberal na grande mídia.
paulo:
“E dai? Dai que se vc tem um ponto de vista mais difundido (e vc pode argumentar que personal belief nao influi mas eu acho que influi) vc tera um bias maior daquela lado. As consequencias disso sao muitas, de formador de opiniao a formador de policies“.
aí a coisa começa a descambar demais para um discurso ACLU. me desculpe, mas formadores de opinião e, especialmente, formadores de policies não têm que se preocupar com o que pensa esta ou aquela facção da população, têm que se preocupar com o que consideram certo e errado. cabe a quem os elege e os lê garantir devida representatividade.
cisco:
“todos vão ter viéses, mas se há um desequilíbrio notável, isso é interessante e pode influir no produto final.”
concordo, novamente. a questão é que, como já respondi antes, o jornalista (assim como o político) não deve estar só preocupado com o que seu leitor quer ler, mas com o que ele considera a interpretação correta de um evento.
não é o número de pessoas contra o casamento gay que irá mudar a opinião de um jornalista (ou de quem quer que seja) sobre o assunto. serão os méritos das opções. e esse jornalista, naturalmente, terá um viés pró-casamento gay, e no caso de ser diretamente dirigido a ser anti-casamento gay, ele provavelmente se recusará a fazê-lo.
paulo:
“O primeiro passo eh entender e admitir que o problema existe. (…) identificar que existe uma proporcao muito maior de esquerda e assumindo que o bias eh independente da orientacao politica prova por A+B que o bias de esquerda eh maior.”
jamais neguei isso. mas é bom lembrar que boa parte da discrepância entre o número de conservadores no público em geral e entre jornalistas fica com aqueles que se consideram moderados. especialmente na mídia local, o número de auto-proclamados liberais é praticamente o mesmo que entre o público em geral, enquanto há muito mais moderados.
paulo:
“Acho que o fato desse bias nao ser assumido (pelo menos oficialmente pelos jornais/tvs) mostra que a intencao nao eh somente avancar um ponto de vista e sim avanca-lo por debaixo dos panos, disfarcado de neutro.”
desculpa a franqueza, mas isso é bobagem. o problema todo reside no fato de que, em 90% dos casos, ninguém quer avançar ponto de vista nenhum. mesmo que alguém quisesse fazer esse controle, não seria possível devido ao caos que é o processo jornalístico, especialmente no jornalismo diário ou online.
o bias existe, indubitavelmente. e certamente é um produto da formação das pessoas. o problema é que ele existe SEMPRE, e exatamente porque pessoas é que tomam todas as decisões do processo, e precisam fazer escolhas baseadas em suas crenças não só políticas como do que é jornalismo, como se faz jornalismo, para que serve o jornalismo etc.
paulo:
“O mercado vai aos poucos deixando isso evidente, como por exemplo, o sucesso da Fox News.”
eu acho hilário que tu, o Cisco, o Cláudio e tantos outros críticos conservadores conseguem se dar conta disso e, ainda assim, repetem o mantra marxista da manipulação da população. vocês não podem defender a eficiência do livre mercado, de sua capacidade de premiar as “boas escolhas” e ao mesmo tempo dizer que as pessoas não são capazes de reconhecer o bias e ler apenas aquilo que lhes interessa.
paulo:
“Se o povo em geral pelo menos soubessse do bias e deixasse claro que nao concorda, quem sabe a situacao melhoraria no geral.”
heh, se o povo não sabe, como é que tu me explica o sucesso da FOX News, o fato de a maioria dos leitores do NYT e do LA Times serem liberais e dos leitores do WSJ ou da Economist serem conservadores? que diabos de conservador tu é que não dá crédito para a capacidade de discernimento do cidadão? o próximo passo é defender uma política de cotas, hehe.
paulo:
“Isso partindo do principio que as pessoas querem ser informadas sem bias.”
eu achei que já tínhamos concordado que é impossível não haver bias no jornalismo. no momento em que tu realmente acreditares nisso, o mundo do jornalismo vai começar a fazer muito mais sentido.
paulo:
“O problema eh que a news reporting media nao consegue ser imparcial. Algumas pessoas acham isso incompetencia ou ma fe. Eu acho que eh algo tao intrinsicamente humano que nao pode ser evitado.”
mas, tchê, dá pra se decidir, faz favor? ;)
paulo:
“O que eu queria entao, eh somente que isso fosse exposto. Porque sendo assim, o NYT teria que contratar quem sabe reporteres de backgrounds/belief systems diferentes para poder realmente tentar ser imparcial“.
do mesmo jeito que tu acha que a FOX News deveria contratar repórteres de histórico diferente para poder realmente tentar ser “fair and balanced”? deixa explicar-te uma coisa, no jornalismo existe um princípio fundamental do qual tu certamente já ouviu falar que chama-se “linha editorial”.
a idéia da linha editorial é estabelecer certos padrões para que o jornal (revista ou o que quer que seja) tenha uma identidade. a idéia é exatamente permitir que o leitor se identifique ou não com aquela publicação.
ninguém lê só O Globo porque não tem outras opções. é porque não vê necessidade de buscar outras informações. são pessoas que ficariam irritadas em ler as mesmas coisas abordadas por outro viés. assim como tenho certeza que existem milhões de conservadores nos EUA que assistem apenas à FOX News porque não têm interesse algum na maneira com que a CNN, CBS ou outra faz a cobertura de determinado evento.
lembrem-se do livre mercado. ninguém é obrigado a ler este ou aquele jornal, muito menos um jornal caro como O Globo. quem quiser ler outro jornal, ou quem como nós gosta de ter a visão de um lado e de outro, vai seguir as duas coisas. eu não leio só o FYI ou só o Smart, eu leio ambos. eu não vejo só a Fox News ou só a CNN, vejo ambas.
se tu acha que fazer uma cobertura meio a meio é ser imparcial, é só ler um jornal de cada ou ver uma rede de cada (sempre lembrando que é bobagem imaginar que o cidadão comum não é capaz de fazer essa identificação do bias). eu, particularmente, acho coisas como Hannity & Colmes, ou como o antigo Crossfire, uma estupidez sem tamanho. prefiro muito mais ver o O’Reilly Factor e depois assistir ao Daily Show.
cláudio:
“Bem, eu creio que o bias existe e não é tão acidental, mas também creio que não é combinado numa salinha. Acho que decorre mais de má formação e da ânsia de querer “fazer a diferença” ou “mudar o mundo”. Ou seja, o jornalista realmente acha que está agindo em prol do bem comum ao divulgar um memorando falso ou omitir notícias que possam de alguma forma favorecer o “inimigo“.
este tipo de coisa não é um problema de bias, é um problema de desonestidade. isso não tem nada a ver com ser liberal ou conservador, isso tem a ver com ser mentiroso.
neste caso, Cláudio, tu estás fazendo algo que o Olavo de Carvalho faz com freqüência e que, novamente, é apropriação de uma manobra típica da esquerda: sugerir que a hegemonia da moralidade está de um lado da moeda. mau caratismo é um mal distribuído igualmente entre canhotos e destros, jornalistas e economistas, policiais e advogados, e assim por diante.
quanto a achar que está fazendo o certo, certamente. mas isso acontece, novamente, em qualquer profissão. o médico que não conta para o paciente que ele vai sentir dor acha que está lhe fazendo um grande favor. o cientista que forja dados para continuar recebendo dinheiro para sua pesquisa, acha que está fazendo um bem para o mundo em manter seu importante trabalho. o político que estabelece barreiras econômicas para proteger o mercado local acha que está fazendo um grande bem ao mundo e à sociedade. e por aí vai.
paulo:
“Quanto ao bias ser totalmente indireto, nao acho que seja o caso. Logicamente nao eh combinado em salinha e muito menos coordenado por forcas misteriosas. Mas eu posso te citar casos como o do LA Times, que circulou uma nota interna alertando os jornalistas a tomarem potos de vista mais neutros porque o jornal estava perdendo leitores que reclamaram do bias.”
é uma mudança de linha editorial com o intuito de angariar novos leitores. se o que eles quiseram foi diminuir a quantidade de opinião e aumentar a quantidade de informação nas matérias, é uma decisão ótima. jornalismo hard news não é lugar para análise e opinião. agora, se eles quiseram manter a opinião e apenas dar uma pequena guinada para a direita, é uma decisão burra porque, como eu disse, o bias não é uma coisa pensada e matutada, é um negócio automático.
ou tu vais me dizer que, quando tu escreve teus posts, fica pensando “hmmm, a cartilha conservadora diz isso, então para me encaixar dentro deste padrão e manter o Artur e o Smart irritados, preciso dizer tal coisa”? claro que não, tu simplesmente analisa e interpreta as coisas conforme teu frame político e moral. jornalistas são pessoas iguaizinhas a ti.
paulo:
“Alias, tudo isso que eu estou falando ja meio que esta acontecendo. Todos os grandes jornais (novamente a unica excecao eh o WSJ) esta cortando gastos e reestruturando. O LA Times eh novamente um bom exemplo.”
bom, aqui entramos em um processo do qual eu não posso falar. conheço muito pouco de jornais norte-americanos para poder analisar suas restruturações ou o que quer que seja. mas o simples fato de cortar gastos e restruturar o jornal não significa, de maneira nenhuma, uma mudança de linha editorial.
paulo:
“A teoria que a imprensa influencia o povo nao eh exclusiva dos marxistas. E na minha opiniao pessoal, eh muito provavel que o povo seja influenciado em um certo nivel.”
cláudio:
“É Paulo, nem acredito que estamos discutindo a influência da imprensa na formação de opinião, principalmente das classes baixa e média. Muitas das pessoas que trabalham comigo têm como ÚNICA fonte de informação o “Globo Online”. Entre as que lêem alguns livros, boa parte só lê os best sellers recomendados… Pelos meios de comunicação.”
influenciados, são. manipulados, de maneira nenhuma. quem fala em manipulação da opinião pública por parte da mídia são frankfurtianos que, não preciso dizer, são marxistas. é uma teoria da comunicação absolutamente de esquerda. e eu acho muito engraçado conservadores (alguns libertários, ainda por cima) dizerem esse tipo de coisa
agora, teorias como o agenda setting dizem, e aí eu concordo inteiramente, que a mídia é tão incapaz quanto qualquer outra instituição em decidir O QUE as pessoas pensam, mas é exímia em dizer SOBRE O QUE elas pensam. o papel da mídia acaba sendo, indiretamente, o de pautar as discussões e preocupações da opinião pública.
e isso basta ver o blog de QUALQUER um dos que estão participando dessa discussão (especialmente o Cláudio, que é praticamente um ombudsman do Globo, hehe) para se ter certeza de que é verdade.
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em suma, a bronca de vocês, como eu tenho dito desde o começo, é que vocês gostariam de ver uma maior representação do bias conservador na grande mídia. assim como boa parte da população norte-americana (e por que não dizer mundial) gostaria de ver uma maior representação de defensores do Intelligent Design na academia.
infelizmente, a não ser que vocês comecem a defender uma política de cotas (que seria, enfim, o cúmulo do ridículo), acho que vocês têm que dar um pouco mais de crédito à capacidade das pessoas de tomar decisões por si mesmas. e ajudar, sempre, a apontar profissionais desonestos, sejam eles jornalistas ou o que quer que seja.