August 16, 2006

inversão dos tratores

Segundo matéria no caderno de cultura da Folha de S. Paulo de hoje,

Um novo filme baseado em um de seus livros mais importantes, duas cinebiografias e o lançamento de duas de suas principais obras no Brasil revigoram o interesse pelo trabalho do escritor americano Philip K. Dick (1928-82)(…)

A Scanner Darkly, principal mote da matéria em questão, é a quarta adaptação de uma história do autor nos últimos quatro anos. Para manter a média, no ano que vem deve ser lançada mais uma. E como bem aponta o repórter, duas cinebiografias sobre K. Dick estão sendo produzidas, uma delas com aval da família.

Particularmente, sempre achei seus trabalhos excessivamente permeados de um pessimismo tecnofóbico. Mas em tempos de escutas telefônicas ilegais e oficiais de segurança ameaçando jogar fora 12 anos de estudo de um professor, só por medo de seus três flash drives, é fácil entender por que suas histórias parecem tão atuais.

Por isso, acho tão estranho o repórter da Folha falar que o filme de Linklater, e os novos lançamentos da editora Aleph, “revigoram o interesse pelo trabalho” de Philip K. Dick. Pelo contrário, vejo estes lançamentos como um claro reflexo desta redescoberta do escritor, como uma conseqüência desta tendência.

May 1, 2006

eu conheci o Hermano

Quando tinha uns quatro anos de idade, Daniel Galera era um de meus amigos mais próximos. Foi na casa dele que vi um Odyssey pela primeira e única vez na vida, foi descendo a lomba da Serraria de bicicleta depois de visitá-lo que descobri a partir de que velocidade os freios da minha Caloi Cross Extra Nylon deixavam de funcionar e fazer uma curva era garantia de machucados muito feios.

Talvez por isso eu estranhe ao ler comentários como do Parada e do Fabrício Carpinejar, falando sobre como o Galera escritor amadureceu e empresta menos de si e do seu mundo aos seus personagens. Minha sensação ao virar cada página era o exato oposto da do poeta gaúcho:

Um escritor amadurece quando supera o seu próprio ponto de vista. Quando não empresta mais suas manias, virtudes e defeitos aos personagens. Quando abre outra vertente que não parta do molde inerte de sua experiência. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, transcende os trejeitos psicológicos e referências possíveis do autor.

Acho que por volta de 1985, a família Galera voltou a São Paulo e lá ficou por um bom tempo. Se não me engano, a quinta série do João XXIII já se estendia por alguns meses quando eu notei que a 5ªB tinha um aluno novo que se parecia com um dos meus grandes amigos da infância. Sofrendo da timidez que carrego até hoje, foi necessário que ele próprio viesse me perguntar se eu lembrava dele, uma semana mais tarde, para que eu confirmasse minha suspeita.

Desde então, no entanto, nunca mais fomos grandes amigos. Estudamos nos mesmos colégios até o fim do segundo grau e continuamos tendo vários amigos em comum depois que ele entrou na Fabico, de maneira que algumas das situações e personagens da adolescência que acabavam entrando em seus contos do COL ou nos seus livros me eram conhecidas, mas um pouco distantes.

Tudo isso para dizer que, de tudo que li do Galera até hoje, este Mãos de Cavalo foi aquele em que eu mais conseguia imaginar as pessoas ou situações que levaram à narrativa do livro. Cheguei a sentir, ao fim da leitura, aquele gostinho de “putz, eu podia ter escrito isso” seguido da óbvia constatação de “não podia nada, e é exatamente por isso que ele é escritor”.

O que, de maneira alguma, é ruim. Concordo com todos que dizem ser esta sua melhor obra, mais madura e bem esculpida do que os trabalhos anteriores. Continua sendo um page turner, mas agora há momentos para sentar numa escadaria, respirar um pouco e apreciar a paisagem de suas descrições ultra-detalhistas e recheadas de analogias. E continua sendo o meu autor predileto nesta tal de nova geração de escritores brasileiros.

ADENDO: em seu blog, o Galera retruca sobre a pessoalidade de seus diferentes trabalhos. Concordo que “não há razão para tratar um alter ego do Phillip Roth ou um moleque que anda de Monark nas curvas de rio sujo de Joca Reiners Terron de maneira diferente que a menina dentuça que bate nos outros com um coelho azul“.

Meu post, obviamente (espero), não era para dizer o contrário, apenas para tentar registrar minha identificação para com a história e os personagens de Mãos de Cavalo. Mas tendo sido amigo do Galera quando criança, vivido muito perto da Esplanada de Hermano por toda a minha vida e na mesma época da narrativa, tenho a impressão de conseguir captar um pouco do processo criativo dele. E penso como, no fundo, pode ser simples (não confundir com fácil, por favor) escrever uma boa história.

December 9, 2005

requiescat in pace

Com freqüência eu aproveito alguma oportunidade para falar mal de escritores de soft sci-fi, aquela ficção científica que pouco se preocupa com a ciência, apenas utilizando situações modernosas para apresentar conflitos de ordem humana e psicológicas. Vocês sabem, esses chatos tipo Philip K. Dick e Kurt Vonnegut.

Mas é com pesar que recebo, via Hit & Run, a notícia da morte do Robert Schekley, talvez o único escritor de soft sci-fi de quem já li algo que gostei. Afinal de contas, ele usa o gênero para o que de melhor pode-se fazer com ele: comédia. Não, embora isso esteja em alguma prateleira aqui em casa, nunca li nada do Douglas Adams. E não, o tal humor do Vonnegut não faz nada por mim.

Mas, se alguém aí se interessa por eles e nunca ouviu falar no Sheckley, vá procurar em algum sebo. Há dois anos atrás, encontrei um pocket dele nos saldos da Feira do Livro.

November 6, 2005

enfim, a feira

Como dna. Mirella faria uma oficina de jornalismo literário, tive a primeira oportunidade de ir à feira do livro deste ano dispondo do tempo que ela merece. Reclamar da qualidade dos saldos é de praxe por parte de quase todo mundo desde que me conheço por leitor, mas este ano tive a real impressão de que havia menos coisas interessantes por lá do que em edições passadas.

Infelizmente, mesmo com largo tempo (a oficina estendeu-se das 18h às 19h45), não consegui olhar todas as bancas com a devida atenção, tendo faltado exatamente a ala onde ficam Ventura, Bamboletras e outras, de onde costumam sair as melhores compras. Ainda assim, saí da praça da Alfândega deveras satisfeito com minhas três compras que quase foram cinco. Em uma sacolinha aqui ao meu lado estão:

O livro de Nabokov é uma edição de 1976, traduzida do inglês (língua para a qual foi traduzida do russo pelo próprio autor), o típico livro que encontramos em saldos de feira do livro. Ainda assim, pareceu-me um preço mais que justo e adequado.

Já o Pavements… é um tipo de livro que jamais esperava encontrar em saldos da feira. Um livro em formato de coffee table, capa dura, com 125 páginas praticamente só de fotos. Publicado em 1976, mostra uma Nova York suja, de bairros pobres e muitos prédios velhos, brechós, lojas de penhores, cinemas pornô. De semelhante à cidade que costumamos ver hoje, em filmes e noticiários, só a profusão de propagandas.

Junto deste, haviam outros livros “de arte”. Um pequeno compêndio das obras de Cézanne que, pelo baixo preço, até cogitei comprar, mas definitivamente não gosto das obras do francês. Um livro sobre a obra de Michelangelo na tumba dos Médici. Um guia da década de 20 sobre a ala Americana do MoMA em Nova York. Tudo pelos mesmos míseros R$ 10,00.

E o clássico de Bellow foi encontrado no saldo da M&F, livraria especializada em livros de língua inglesa, que fica na área internacional da feira. A edição é exatamente a que está no link acima, e está tão nova quanto se pode querer. Neste mesmo saldo, pelos mesmos R$ 15,00, estava um pocket antigo de Money, do Martin Amis. Fiquei praguejando por alguns minutos por ter comprado uma versão brasileira do livro na feira do ano passado.

Além do livro de Amis, a outra compra que deixei de fazer foi Crash, Estranhos Prazeres, do J.G. Ballard, que estava em um saldo de R$ 5,00. Cheguei a ficar com o livro na mão, até que me convenci que 1) eu não gosto tanto assim das histórias do Ballard, e 2) eu achei o filme feito a partir deste livro bem chatinho. Como minha filosofia nesta feira é de só comprar o que absolutamente valha a pena, acabei colocando-o de volta na caixa de saldos.

November 1, 2005

Roland of Gilead

Nem sempre o resultado é bom, mas não se pode dizer que o Stephen King tem medo de experimentar com formatos e estilos de histórias. Pouco antes de ser atropelado e quase morrer, ele havia deixado o horror e a fantasia de lado para escrever thrillers como Dolores Claiborne e Gerald’s Game. Também tinha se envolvido em algumas transições de obras suas para a TV, todas muito fracas, como The Shining e The Stand.

Quando a grande maioria dos escritores morria de medo da palavra e-book, King praticamente inaugurou a venda de livros eletrônicos da Amazon, com Riding the Bullet, lançada exclusivamente em formato digital. Recentemente, o escritor novamente saiu do estilo que lhe consagrou para escrever uma história para uma coleção de livros policiais no estilo dos pockets que consagraram Ellery Queen e companhia.

Agora, finalmente ele resolveu prestar seus serviços a um formato que me parece mandado fazer para o tipo de histórias e de prosa que King tanto gosta: quadrinhos. Junto com a Marvel, ele está escrevendo uma série de histórias que servirão como uma extensão ao mundo de Dark Tower (a Middle-earth de King), mostrando as provações do pistoleiro Roland antes de chegar ao ponto em que eles nos é apresentado no início de The Gunslinger.

A idéia me parece excelente, e o visual das imagens que a Marvel colocou no site é muito bom. Não custando uma pequena fortuna, posso dizer com razoável certeza que comprarei.

October 20, 2005

spreading the meme

Via Galera, seguido de menções do Francisco, da Cássia e do A. Rod, aproveito momento de pouca inspiração para posts e demonstro toda minha proverbial falta de cultura, ao analisar a lista dos 100 melhores romances da língua inglesa de 1923 até hoje, publicada pela revista Time. Da lista, li apenas seis:

The Catcher in the Rye - J.D. Salinger
The Grapes of Wrath - John Steinbeck
A Handful of Dust - Evelyn Waugh *
The Lord of the Rings - J.R.R. Tolkien
Neuromancer - William Gibson
Things Fall Apart - Chinua Achebe

*único que li em português, curiosamente em uma bela tradução do Diogo Mainardi

Hoje, estou mais ou menos na metade do Atonement*. Na minha prateleira, para eventual leitura, estão Lolita* (igualmente meio lido), Money*, The Corrections, Lord of the Flies, The Great Gatsby, Portnoy’s Complaint* e To Kill a Mockingbird. Pretendo ler alguns outros, em especial Brideshead Revisited e Gravity’s Rainbow.

Duas coisas me chamaram atenção nesta lista. Primeiro, a aparente falta de livros de terror (digo aparente porque não conheço todas as obras listadas), o que me chama especial atenção em uma lista que prestou referência a folhetins policiais (The Big Sleep e Red Harvest) e quadrinhos (Watchmen). E além disso, noto que foram listados pelo menos quatro romances com pedigree de ficção científica (Neuromancer, Slaughterhouse-Five, Snow Crash e Ubik), todos de soft sci-fi.

Parece que o mundo literário anda precisando de um Stanley Kubrick, que possa fazer na literatura o que o diretor fez pelo terror e pela hard sci-fi com The Shining e 2001. Ou então os críticos ainda precisam se livrar de certos preconceitos literários.

August 17, 2005

este livro se mudou

The Ministry of Reshelving is dedicated to the proper classification of fiction and nonfiction books. The current Ministry initiative focuses or relocating a total of one thousand nine hundred and eighty four copies, across all 50 United States, of George Orwell’s _1984_ from “fiction” or “literature” to more suitable sections, like “Current Affairs”, “US Politics”, “True Crime”, or “New Non-Fiction.” You are invited to join us in our reshelving efforts.

Eis aí uma causa nobre.

July 13, 2005

incentivo à cultura

Primeiro alguém fez um copy/paste e enviou para uma lista de discussão que assino. Depois, foi o Träsel a indignar-se com a matéria “Subsídios autorais”, de Jerônimo Teixeira, na revista Veja desta semana.

Quando li a matéria pela primeira vez, tive a nítida sensação de já ter lido crítica muito parecida antes. Hoje, resolvi vencer a preguiça e pesquisar um pouco, e acabei confirmando minha primeira impressão: há pouco mais de um mês, Janer Cristaldo foi ainda mais incisivo em seu ataque ao Movimento Literatura Urgente.

Eu, particularmente, não tenho posição definida no assunto, mas tendo a concordar com aqueles que são contra o incentivo para escritores. O Estado já gasta demais, e como bem disse o próprio Träsel, o povo brasileiro não gosta de ler. Assim, gastar seu dinheiro para doar a escritores é algo que não faz muito sentido. Que, como disse o repórter de Veja, crie-se programas de incentivo à leitura.