Quando tinha uns quatro anos de idade, Daniel Galera era um de meus amigos mais próximos. Foi na casa dele que vi um Odyssey pela primeira e única vez na vida, foi descendo a lomba da Serraria de bicicleta depois de visitá-lo que descobri a partir de que velocidade os freios da minha Caloi Cross Extra Nylon deixavam de funcionar e fazer uma curva era garantia de machucados muito feios.
Talvez por isso eu estranhe ao ler comentários como do Parada e do Fabrício Carpinejar, falando sobre como o Galera escritor amadureceu e empresta menos de si e do seu mundo aos seus personagens. Minha sensação ao virar cada página era o exato oposto da do poeta gaúcho:
Um escritor amadurece quando supera o seu próprio ponto de vista. Quando não empresta mais suas manias, virtudes e defeitos aos personagens. Quando abre outra vertente que não parta do molde inerte de sua experiência. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, transcende os trejeitos psicológicos e referências possíveis do autor.
Acho que por volta de 1985, a família Galera voltou a São Paulo e lá ficou por um bom tempo. Se não me engano, a quinta série do João XXIII já se estendia por alguns meses quando eu notei que a 5ªB tinha um aluno novo que se parecia com um dos meus grandes amigos da infância. Sofrendo da timidez que carrego até hoje, foi necessário que ele próprio viesse me perguntar se eu lembrava dele, uma semana mais tarde, para que eu confirmasse minha suspeita.
Desde então, no entanto, nunca mais fomos grandes amigos. Estudamos nos mesmos colégios até o fim do segundo grau e continuamos tendo vários amigos em comum depois que ele entrou na Fabico, de maneira que algumas das situações e personagens da adolescência que acabavam entrando em seus contos do COL ou nos seus livros me eram conhecidas, mas um pouco distantes.
Tudo isso para dizer que, de tudo que li do Galera até hoje, este Mãos de Cavalo foi aquele em que eu mais conseguia imaginar as pessoas ou situações que levaram à narrativa do livro. Cheguei a sentir, ao fim da leitura, aquele gostinho de “putz, eu podia ter escrito isso” seguido da óbvia constatação de “não podia nada, e é exatamente por isso que ele é escritor”.
O que, de maneira alguma, é ruim. Concordo com todos que dizem ser esta sua melhor obra, mais madura e bem esculpida do que os trabalhos anteriores. Continua sendo um page turner, mas agora há momentos para sentar numa escadaria, respirar um pouco e apreciar a paisagem de suas descrições ultra-detalhistas e recheadas de analogias. E continua sendo o meu autor predileto nesta tal de nova geração de escritores brasileiros.
ADENDO: em seu blog, o Galera retruca sobre a pessoalidade de seus diferentes trabalhos. Concordo que “não há razão para tratar um alter ego do Phillip Roth ou um moleque que anda de Monark nas curvas de rio sujo de Joca Reiners Terron de maneira diferente que a menina dentuça que bate nos outros com um coelho azul“.
Meu post, obviamente (espero), não era para dizer o contrário, apenas para tentar registrar minha identificação para com a história e os personagens de Mãos de Cavalo. Mas tendo sido amigo do Galera quando criança, vivido muito perto da Esplanada de Hermano por toda a minha vida e na mesma época da narrativa, tenho a impressão de conseguir captar um pouco do processo criativo dele. E penso como, no fundo, pode ser simples (não confundir com fácil, por favor) escrever uma boa história.