Good Morning Kiss: Ao saber que seria esta a banda gaúcha a abrir o show, fui à Internet a cata de algum MP3 para saber onde estava me metendo. Descobri que tratava-se de mais um grupinho indie, com um som que parece uma versão britânica chorosa do Goo Goo Dolls. Felizmente, informava-me o Bruno, o “show” seria de três músicas, tocadas apenas com guitarra.
No fim, poderia ter sido pior (se tivessem botado o Reação em Cadeia pra tocar, por exemplo), mas é impossível não ficar irritado com quem quer que tenha inventado essa lei idiota de obrigar bandas regionais a abrir shows internacionais. É um incentivo ao jabá e uma garantia de hostilização da pobre banda que acabar escalada (aconteceu com o Acústicos & Valvulados no show do Strokes, e aconteceu ontem de novo).
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Mudhoney: Antes de ontem, acho que já tinha ouvido duas músicas deles na vida. Sabia que eram barulhentos e que eram os vovôs do grunge. O show foi excelente, tanto por seus próprios méritos como por preparar os ânimos pro que viria a seguir. Barulheira infernal, instrumentistas excelentes e empolgados, e músicas incrivelmente boas. Já até botei algumas coisas pra baixar no SoulSeek.
É impossível não ter pelo menos respeito por quatro coroas (o baterista, com uma camiseta branca e um coletinho, parecia que tocava em alguma banda de rock progressivo) metendo pau nos instrumentos, fazendo muito barulho. E Touch Me, I’m Sick é, como eu bem me lembrava, uma baita música.
Também foi legar ver a absoluta falta de frescuras dos integrantes da banda. Depois do “show” dos gaúchos, subiram ao palco com todas as luzes acesas, afinaram instrumentos, acenaram para alguns fãs (sim, havia fãs do Mudhoney, armados de camisetas e faixas) e voltaram para o backstage, onde ficaram até as 20h em ponto.
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Pearl Jam: É preciso dizer que não sou um fã da banda. Acho Yield e Vs. dois discos excelentes, é verdade, mas nunca comprei nenhum deles. Várias músicas extremamente conhecidas tocadas ontem (como State of Love and Trust e Yellow Ledbetter, que fechou o show) são quase estranhas para mim. Mas ainda assim, consigo imaginar que muitos fãs tenham tido uma experiência próxima do transcendental.
De minha parte, só consegui aproveitar o show depois de transcorridos cerca de 30 minutos. Estava na pista, grudado à grade que a cortava no meio e muito próximo ao palco. Hoje estou com escoriações no braço por ficar agarrado à dita grade, tentando conter a turba de imbecis que ficava empurrando para todos os lados possíveis na esperança de chegar um pouco mais próxima da banda. Somente depois de meia hora dessa briga, e quando a banda começou a tocar músicas mais calmas, o pessoal se acomodou e pude, finalmente, prestar atenção ao que acontecia no palco.
A performance do quinteto (ou sexteto, se contarmos o simpático Kenneth “Boom” Gaspar) foi segura mas, para meu gosto, um pouco fria. Eddie Vedder tem uma conexão emocional invejável com a platéia, mas durante a maior parte do tempo a banda parece estar fazendo uma jam. Me lembrou o show do Cake, no Opinião, em que o John McRea passou o tempo inteiro conversando com a platéia, contando histórias, enquanto a banda parecia estar lá apenas para seguir o roteiro e lhe acompanhar.
Ainda assim, consigo imaginar que, para os fãs de carteirinha do Pearl Jam, a experiência de ontem deve ter beirado o transcendental. Um show de duas horas e meia, Eddie Vedder pedindo a um intérprete que escrevesse em folhas o que ele gostaria de dizer à platéia, um “parabéns a você” cantado por 14 mil pessoas para o baterista Matt Cameron, participação de Marky Ramone em I Believe in Miracles, e pedidos da platéia atendidos (State of Love and Trust e I Got ID).
Meu momento particular de emoção, no entanto, ficou por conta do segundo bis. Depois que saíram do palco ao fim de Alive cantado em coro por todos os presentes, eu fiquei imaginando o que diabos eles poderiam tocar para superar aquilo. Fiquei pensando em um convite para o pessoal do Mudhoney subir ao palco, junto com uma aparição surpresa de Chris Novoselic e Dave Grohl para tocar Smells Like Teen Spirit (ei, eu estava cansado e começando a delirar, me deixem).
Para minha surpresa, eles fizeram coisa melhor e tocaram uma música que nem me lembrava que fazia parte de seu repertório: Baba O’Riley. Provavelmente uma de minhas músicas prediletas de todos os tempos, ainda mais quando tocada ao vivo sem aqueles milhões de sintetizadores do Who’s Next.
No fim, foi um grande show. Não superou minhas expectativas, não foi nada fora do sério, nem um exemplo do que deve ser um show de rock. Não foi nem mesmo o melhor show do ano, para mim (Arcade Fire e Cake, nessa ordem, ainda são meus prediletos). Mas valeu cada centavo gasto no ingresso, cada minuto que fiquei parado na fila para entrada preferencial no estádio (nada como ter uma namorada que faz parte do fã-clube oficial), e até mesmo minhas dores musculares e arranhões no braço. Para os verdadeiros fãs, então, deve ter sido uma experiência realmente soberba.
UPDATE:

O show já está disponível para download (MP3, 192 kbps) no site da banda, por módicos US$ 9,99. Junto vêm algumas fotos da performance e ilustrações para fazer a capa do CD. O setlist, para os interessados, é o seguinte:
01. Long Road / Last Exit (8:01)
02. Animal (2:41)
03. Do the Evolution (3:46)
04. Green Disease (2:47)
05. Jeremy (6:29)
06. Grievance (3:17)
07. Cropduster (4:00)
08. Even Flow (7:44)
09. Better Man (4:28)
10. State of Love and Trust (4:16)
11. Daughter (7:16)
12. Habit (3:51)
13. Given to Fly / Immortality (9:30)
14. Save You / Rearview Mirror (11:16)
15. Encore Break 1 (1:48)
16. I Got ID (4:13)
17. Crazy Mary (10:29)
18. I Believe in Miracles (3:46)
19. Alive (7:25)
20. Encore Break 2 (1:12)
21. Elderly Woman (…) in a Small Town (3:22)
22. Corduroy (4:59)
23. Blood (5:45)
24. Baba O’Riley (5:12)
25. Yellow Ledbetter (6:40)