É incrível como um assunto tão banal quanto as dificuldades financeiras de uma empresa particular podem render tanta bobagem quanto o que é dito, a torto e a direito, sobre a situação da Varig. Pra variar, críticos e cronistas parecem sentir uma necessidade quase patológica de colocarem-se de um ou outro lado de uma cerca que, de fato, não existe.
O fato pode ser percebido sem, sequer, precisarmos ler mais do que um veículo. Vejamos o caso do NoMínimo, por exemplo:
Se banqueiros, empresários ou donos de bingo quiserem botar uma tonelada de erva privada no caldeirão da Varig, que Deus os abençoe. (…) Mas experimentar um Proar para manter o Brasil nas nuvens equivale a tentar aterrissagem forçada no inferno. (…) O governo não gera dinheiro. Produzem-no em impostos os brasileiros, que decididamente não merecem, mais uma vez, vê-lo ir pelos ares.
Xico Vargas defende a clássica posição conservadora de que o governo não tem que se meter em negócios privados. Teoria perfeitamente defensável, mas que de maneira alguma se aplica aos problemas da Varig da mesma maneira que aos criadores de frango ou aos agricultores gaúchos.
Se quando a merda é jogada no ventilador os executivos da Varig vão correndo bater à porta do governo não é por não acreditarem na abertura de mercados ou por quererem privilégios federais (afinal de contas, poucos mercados são mais fechados e protegidos do que a aviação comercial). O fazem por duas razões.
Primeiro, porque o governo é seu maior credor, e quem tem mais poder de impedir seu funcionamento se resolver cobrar taxas aeroportuárias através da Infraero ou o combustível fornecido pela Petrobras. E segundo porque o governo lhes deve mais de R$ 5 bilhões - devido a perdas durante os governos Sarney e Collor, quando foram obrigadas a vender passagens subsidiadas - e continua a rolar a dívida até a última instância judicial possível, embora tenha perdido todas as causas até hoje (das três empresas que mais sofreram com esta atitude predatória do governo federal, e a qual é responsável por boa parte de suas dívidas com o mesmo governo, apenas a Varig permanece em precário funcionamento, depois que Vasp e Transbrasil foram obrigadas a fechar as portas).
Portanto, não deveria ser difícil entender que executivos da empresa batam à porta de Lula ou quem quer que seja na busca de carência de dívidas e participação em processos de recuperação. Por outro lado:
Sem procuração de ninguém, faço aqui um humilde apelo em nome de passageiros e funcionários aos meus amigos do governo, grandes empresários nacionais e bancos em geral: a Varig não pode morrer.
Ricardo Kotscho sofre da clássica reação emocional ao fechamento de uma empresa que faz parte da sua vida. E que, na verdade, não é razão nenhuma para alguém ajudar empresa alguma a se recuperar de uma má administração.
Na verdade, nem mesmo apelos aos milhares de empregados da Varig deveriam ser razão para alguém investir um centavo que seja em sua recuperação. Especialmente em um mercado tão protegido quanto este, o espaço que hoje é ocupado pela Varig será tomado por outras empresas, que por sua vez precisarão de mão de obra especializada, que estará em franca oferta devido aos demissionários da Pioneira. No caso de pilotos, em especial, empresas do mundo inteiro vão rapidamente absorver a mão-de-obra, em especial no caso de jovens com bastante horas de vôo.
As únicas grandes preocupações que devem existir, neste sentido, são quanto ao pagamento das dívidas do Aerus com seus clientes, e as dívidas trabalhistas da empresa com seus antigos funcionários. Dois casos em que, dificilmente, os empregados receberão todo o dinheiro que lhes é devido.
Enfim, como é normalmente o caso em discussões polarizadas como essa, a razão encontra-se na tal terceira via, em um meio termo. O governo deve, sim, ajudar na recuperação de uma empresa que ajudou a afundar e que, ainda assim, lhe traz grandes benefícios econômicos e, quiçá, diplomáticos. Mas deve fazê-lo sem a necessidade de injeção de mais dinheiro público, e obrigando a apresentação de um plano viável de recuperação da empresa.
Por outro lado, evitar batalhas judiciais pela garantia de direitos trabalhistas também é uma boa razão para se apelar à recuperação de uma empresa deste tamanho, mas seu eventual fim não pode ser visto como um golpe tão grande assim na economia brasileira, nem mesmo no mercado da aviação comercial. Existem outras empresas para assimilar o espaço deixado pela Varig, e dependendo do nível de endemia da má administração desta é melhor que feche de uma vez do que continue a sangrar.
Afinal de contas, isso nunca foi impedimento para que empresas como a PanAm ou, no caso do Brasil, a Panair seguissem o mesmo caminho. E ainda que o fim de ambas tenha sido triste, não causou maiores impactos a longo prazo na economia ou no mercado da aviação comercial mundial. Inclusive, não fosse o fim da Panair e, provavelmente, a então minúscula Varig provavelmente jamais teria chegado aonde chegou.
Particularmente, acho que a Varig ainda pode ser salva, mas que para isso é preciso que alguém tire o seu controle das mãos da FRB-Par (e sua mania de trocar de presidente toda semana) e ponha alguém realmente competente em sua direção. Infelizmente, este é um mercado cheio de picaretas e corruptos, tanto nas empresas quanto em cargos federais, e não parece haver ninguém interessado em encarar a bronca exceto a Volo do Brasil, que comprou a VarigLog mas que parece estar tendo dificuldades judiciais para confirmar a negociação.