August 23, 2006

ministro do trabalho das comunicações

O grande projeto de vida do ministro Hélio Costa é a definição da Lei Geral da Comunicação de Massa, que unificaria a legislação que trata de telefonia, Internet, televisão e rádio. Aparentemente, o assunto lhe preocupa tanto que ele está disposto a simplesmente impedir qualquer novo avanço tecnológico no país até que isto esteja resolvido, sempre evitando decisões puramente técnicas e garantindo o lado social do desenvolvimento.

Primeiro, demonstrou profunda preocupação sobre a hipótese de o governo começar a utilizar software livre em seus sistemas, dizendo que, devido a algumas preocupações, precisava de mais tempo para ponderar o assunto. Depois foi a TV Digital, que também precisa ser discutida em intermináveis painéis públicos, para que ninguém se esqueça da inclusão digital, ou use a tecnologia para enriquecer.

Mais recentemente, Costa se mostrou profundamente incomodado com a decisão da Anatel de fazer leilão para a exploração de Internet em banda larga através de redes sem fio de 3,5 GHz e 10,5 GHz (vulgo WiMax).

A agência, criada exatamente para que este tipo de coisa não ficasse à mercê dos interesses duvidosos de ministros e congressistas completamente ignorantes, manteve a decisão de fazer o leilão. Alegando, como sempre, a necessidade de discutir melhor o assunto, o ministro ameaça impedir o dito cujo através de uma portaria.

Hmm, tem mais alguma tecnologia nova na área de telecomunicações que ainda não foi implementada no Brasil? Ah, claro, redes de celular de terceira geração, ou apenas 3G. Não se preocupem, nosso sempre atento e preocupado ministro já está pronto para defender a sociedade, e garante que qualquer decisão sobre o assunto “não será apenas técnica“.

August 22, 2006

haja paciência

Depois de não sei quantos anos de discussões absolutamente infrutíferas, o governo brasileiro decidiu, este ano, adotar o já famoso “padrão japonês” para a TV digital a ser implantada no país. Assim, teremos uma espera de até 10 anos para finalmente termos acesso às vantagens que o sistema já leva para moradores de lugares como Japão, Inglaterra e Estados Unidos.

Ou não. Primeiro, há notícias pouco encorajadoras sobre a capacidade do mercado de alcançar o nível de produção previsto por lei. Além disso, todo mundo quer um pedaço do bolo e vive a reclamar que quer mais espaço na discussão da implantação do sistema no Brasil.

Mas pode ser que toda esta gritaria, no fim das contas, não sirva para nada. Afinal de contas, agora o Ministério Público - sempre ele - está querendo anular a escolha do padrão japonês, por uma série absurdamente grande de razões. Obviamente, a sanha regulatória de nossos três digníssimos poderes vai acabar é fazendo com que, quando a discussão tiver um fim, a tal “TV digital” já será algo do passado.

Poucos assuntos me deixam mais irritados com a incompetência e a ânsia de poder de nossos governantes e legisladores como este da TV digital. Cada vez que ouço falar em “transmissões de alta definição”, “interatividade” ou coisa que o valha, minha vontade é de fazer as malas e ir virar hamburguer em algum lugar minimamente civilizado, onde governantes estão mais preocupados em evitar que se leve pasta de dente em aviões.

August 7, 2006

o árduo caminho para a civilização

Em sua última onda de ataques em São Paulo, o PCC parece estar cada vez mais próximo de merecer ser considerado um grupo terrorista. Verdade que dado o horário dos ataques e o baixo número de feridos, seus alvos continuam sendo instituições públicas e símbolos do dinheiro, e não a população em geral.

Mas o limiar entre jogar um coquetel molotov num supermercado pela manhã, e em algum bar lotado de gente durante a noite me parece desconfortavelmente próximo. E também é de se imaginar o que aconteceria se integrantes do grupo aprendessem a fazer bombas direito, ao invés de explosivos de fundo de quintal que raramente funcionam.

Exceto pela onda de assassinatos de agentes penitenciários, policiais e familiares, me parece que os ataques do PCC são voltados a atacar o dinheiro do Estado e de grandes empresas privadas, como o Itaú. O caos no transporte urbano, somado ao medo da população, mais atacam a economia da cidade e do Estado do que qualquer outra coisa. E as explosões em prédios públicos, bancos e supermercados, também têm resultado apenas em custos para seus donos.

Por um lado, isso me deixa um pouco satisfeito, ao ver Lembo Lembo e cia. manterem a posição de que a situação deve ser resolvida com ações policiais, a partir de serviços de inteligência e não com ações militares, tanques na rua e trocas de tiro no meio da cidade. Mas por outro, me deixa um pouco curioso sobre qual seria a intenção do PCC, ao atacar exatamente a região mais sensível da elite financeira e política do país.

July 13, 2006

post em exercício

Tá lá, mais uma vez, entre as matérias da Folha Online:

Alencar assume Presidência durante viagem de Lula

Alguém um dia vai ter que me explicar o raciocínio por trás dessa história de “[cargo executivo] em exercício”. Ou vão tentar me convencer que, de fato, quando o Lula pisa fora do país ele realmente relega todos seus poderes ao José Alencar, sem que ninguém lhe consulte sobre o que quer que seja? Claro, alguém tem que assinar papéis, receber pedintes e manter a atividade protocolar do Executivo, mas não precisa mudar de cargo para fazer isso.

Além de que, seguindo essa lógica, Lula deveria ser tratado como “presidente eleito” em suas viagens, já que não é o “presidente em exercício”. Até onde sei, o Bush não deixa de ser presidente dos EUA quando está fora do país, nem alguém sonha em chamar o Cheney de presidente em exercício. Não imagino que a Inglaterra passe a ter um “premier em exercício” quando Tony Blair não está em sua cadeira em Westminster, e muito menos que Charles passe a ser o “rei em exercício” caso sua mãe esteja gastando o dinheiro dos contribuintes mundo afora.

Oquei, é um negócio que não tem importância nenhuma e eu sou um chato por ficar reclamando disso. Mas alguém tem alguma explicação pra essa asneira que faça algum sentido?

May 24, 2006

politicagem na capital federal

“Congressistas só trabalham de terça a quinta-feira”. Segundo a simpática moça responsável pela visitação ao Congresso Nacional, na última segunda-feira, esta máxima é falaciosa. Ocorre que o regimento interno estabelece que, nestes dias, ocorrem sessões não deliberativas, ou seja, não há votação de nada. Assim, deputados e senadores aproveitam os dias para ajustar a agenda das inúmeras comissões a ocorrer pelos vários anexos do prédio.

Os poucos que vão ao plenário participar das sessões, o fazem para discursar. Não para tentar convencer ninguém de nada, obviamente, porque apenas meia dúzia de gatos pingados estão presentes. Mas sim para falar a seus eleitores, que podem acompanhar sua participação tanto pela TV como pelo rádio, na Hora do Brasil.

Se nossos legisladores estavam em comissões, fazendo campanha país afora ou simplesmente flanando em algum recanto do país, eu não sei. Mas os plenários estavam, como esperado, às moscas. Sei apenas que, na segunda-feira, já terminada a anêmica sessão não deliberativa, um conhecido senador da República permanecia no plenário, aparentemente em reunião com assessores.

Politicando

May 19, 2006

dúvida

Alguém aí, além de mim, viu a entrevista do Guilherme Fiuza no Jô Soares na quarta-feira e ficou com muita vontade de ler seu livro, 3000 Dias no Bunker, sobre o governo FHC?

April 13, 2006

dicotomia aérea

É incrível como um assunto tão banal quanto as dificuldades financeiras de uma empresa particular podem render tanta bobagem quanto o que é dito, a torto e a direito, sobre a situação da Varig. Pra variar, críticos e cronistas parecem sentir uma necessidade quase patológica de colocarem-se de um ou outro lado de uma cerca que, de fato, não existe.

O fato pode ser percebido sem, sequer, precisarmos ler mais do que um veículo. Vejamos o caso do NoMínimo, por exemplo:

Se banqueiros, empresários ou donos de bingo quiserem botar uma tonelada de erva privada no caldeirão da Varig, que Deus os abençoe. (…) Mas experimentar um Proar para manter o Brasil nas nuvens equivale a tentar aterrissagem forçada no inferno. (…) O governo não gera dinheiro. Produzem-no em impostos os brasileiros, que decididamente não merecem, mais uma vez, vê-lo ir pelos ares.

Xico Vargas defende a clássica posição conservadora de que o governo não tem que se meter em negócios privados. Teoria perfeitamente defensável, mas que de maneira alguma se aplica aos problemas da Varig da mesma maneira que aos criadores de frango ou aos agricultores gaúchos.

Se quando a merda é jogada no ventilador os executivos da Varig vão correndo bater à porta do governo não é por não acreditarem na abertura de mercados ou por quererem privilégios federais (afinal de contas, poucos mercados são mais fechados e protegidos do que a aviação comercial). O fazem por duas razões.

Primeiro, porque o governo é seu maior credor, e quem tem mais poder de impedir seu funcionamento se resolver cobrar taxas aeroportuárias através da Infraero ou o combustível fornecido pela Petrobras. E segundo porque o governo lhes deve mais de R$ 5 bilhões - devido a perdas durante os governos Sarney e Collor, quando foram obrigadas a vender passagens subsidiadas - e continua a rolar a dívida até a última instância judicial possível, embora tenha perdido todas as causas até hoje (das três empresas que mais sofreram com esta atitude predatória do governo federal, e a qual é responsável por boa parte de suas dívidas com o mesmo governo, apenas a Varig permanece em precário funcionamento, depois que Vasp e Transbrasil foram obrigadas a fechar as portas).

Portanto, não deveria ser difícil entender que executivos da empresa batam à porta de Lula ou quem quer que seja na busca de carência de dívidas e participação em processos de recuperação. Por outro lado:

Sem procuração de ninguém, faço aqui um humilde apelo em nome de passageiros e funcionários aos meus amigos do governo, grandes empresários nacionais e bancos em geral: a Varig não pode morrer.

Ricardo Kotscho sofre da clássica reação emocional ao fechamento de uma empresa que faz parte da sua vida. E que, na verdade, não é razão nenhuma para alguém ajudar empresa alguma a se recuperar de uma má administração.

Na verdade, nem mesmo apelos aos milhares de empregados da Varig deveriam ser razão para alguém investir um centavo que seja em sua recuperação. Especialmente em um mercado tão protegido quanto este, o espaço que hoje é ocupado pela Varig será tomado por outras empresas, que por sua vez precisarão de mão de obra especializada, que estará em franca oferta devido aos demissionários da Pioneira. No caso de pilotos, em especial, empresas do mundo inteiro vão rapidamente absorver a mão-de-obra, em especial no caso de jovens com bastante horas de vôo.

As únicas grandes preocupações que devem existir, neste sentido, são quanto ao pagamento das dívidas do Aerus com seus clientes, e as dívidas trabalhistas da empresa com seus antigos funcionários. Dois casos em que, dificilmente, os empregados receberão todo o dinheiro que lhes é devido.

Enfim, como é normalmente o caso em discussões polarizadas como essa, a razão encontra-se na tal terceira via, em um meio termo. O governo deve, sim, ajudar na recuperação de uma empresa que ajudou a afundar e que, ainda assim, lhe traz grandes benefícios econômicos e, quiçá, diplomáticos. Mas deve fazê-lo sem a necessidade de injeção de mais dinheiro público, e obrigando a apresentação de um plano viável de recuperação da empresa.

Por outro lado, evitar batalhas judiciais pela garantia de direitos trabalhistas também é uma boa razão para se apelar à recuperação de uma empresa deste tamanho, mas seu eventual fim não pode ser visto como um golpe tão grande assim na economia brasileira, nem mesmo no mercado da aviação comercial. Existem outras empresas para assimilar o espaço deixado pela Varig, e dependendo do nível de endemia da má administração desta é melhor que feche de uma vez do que continue a sangrar.

Afinal de contas, isso nunca foi impedimento para que empresas como a PanAm ou, no caso do Brasil, a Panair seguissem o mesmo caminho. E ainda que o fim de ambas tenha sido triste, não causou maiores impactos a longo prazo na economia ou no mercado da aviação comercial mundial. Inclusive, não fosse o fim da Panair e, provavelmente, a então minúscula Varig provavelmente jamais teria chegado aonde chegou.

Particularmente, acho que a Varig ainda pode ser salva, mas que para isso é preciso que alguém tire o seu controle das mãos da FRB-Par (e sua mania de trocar de presidente toda semana) e ponha alguém realmente competente em sua direção. Infelizmente, este é um mercado cheio de picaretas e corruptos, tanto nas empresas quanto em cargos federais, e não parece haver ninguém interessado em encarar a bronca exceto a Volo do Brasil, que comprou a VarigLog mas que parece estar tendo dificuldades judiciais para confirmar a negociação.

March 22, 2006

conflito armado

A megaoperação do Exército no Rio não diminuiu a ousadia de criminosos nem impediu novas tentativas de roubos de armas em instalações militares. No sábado, 11 de março, oitavo dia de ocupação de favelas da cidade por tropas, a Base Aérea de Santa Cruz sofreu uma tentativa de invasão de criminosos que procuravam armamento.

Sou só eu, ou mais alguém tá preocupado com o caminho que esse negócio tá seguindo?

March 21, 2006

cada dia pior

Por falar em paranóia de direita, está tendo uma discussão deveras divertida lá no blog do Janer Cristaldo sobre o corte de uma cena do filme “Adeus, Lênin” transmitido pela rede Telecine. Eu sempre achei estranha a capacidade deles de sincronizar razoavelmente o horário de início de filmes com metragens completamente diferentes em seus cinco canais, e não duvidaria se alguém descobrisse que a prática é comum (inclusive já tive impressão semelhante algumas vezes).

De qualquer jeito, o engraçado é ver o corte taxado de “censura” ou então conclusões como “não podem alegar extrema violência, nem cenas de putaria, então resta apenas controle ideológico”. Afinal de contas, não há outra razão para se cortar o pedaço de um filme que não esses três. Mas o mais engraçado é ver que toda esta indignação foi causada pelo corte de um pôster de Che Guevara.

March 16, 2006

covardes e hipócritas

O Träsel é, para mim, um exemplo do pior tipo de pessoa que foi criada pela debacle petista com escândalos de mensalão e semelhantes. Passou anos acreditando em um discurso que, conforme foi levado ao poder, desmoronou pouco a pouco. Agora, desiludido, busca outro discurso ao qual possa se agarrar, caso contrário se recusa a tomar parte no jogo político.

Tenho visto a reação entre muitos dos petistas que não se debandaram para o PSol, PSTU ou coisa que o valha. E para todos repito que a anulação do voto (ou, pior, ir para a praia e justificar), neste caso, é uma atitude covarde e hipócrita. Covarde porque, ao ter que escolher entre o ruim e o pior, preferem lavar as mãos e aceitar qualquer que seja o resultado. E hipócrita porque sabem que 1) uma anulação da eleição não irá acontecer e 2) mesmo que ocorra, NADA irá mudar e ainda por cima serão gastos mais vários milhões dos cofres públicos para viabilizar a nova eleição.

E o pior é pensar que todas essas pessoas não estão preocupadas com o processo político. Pergunte a eles quantas cartas mandaram para os deputados que elegeram, cobrando posicionamento nesta ou naquela opinião. Pergunte de quantas manifestações de reivindicação (obviamente não estou falando de sair pela rua gritando palavras de ordem) participaram. Enfim, como a decisão por não votar (ou votar nulo) deixa bem clara, são pessoas que não estão preocupadas em fazer sua parte para tentar melhorar o processo, mas sim pessoas que querem um discurso para repetir e uma bandeira para carregar.

UPDATE: Como tanta gente gosta de ler o que não está escrito, permitam-me esclarecer uma coisa: votar nulo, em branco ou justificar é um direito do cidadão, seja como protesto seja por simplesmente não dar bola para a coisa. Estou apenas dizendo que, como forma consciente de protesto, considero uma saída covarde e hipócrita.

Também não estou sugerindo, de forma alguma, que o único jeito que alguém pode contribuir com o avanço da sociedade é votando em alguém. Inclusive, se não ficou bem claro pelo último parágrafo deste post, eu ficaria bem feliz se houvesse no Brasil o costume de se fazer algo tão banal quanto cobrar de quem elegemos que faça aquilo em que votamos, por exemplo.

Por último, não estou dizendo que as pessoas precisam ter consciência política para agir em prol da sociedade. Embora eu ache que a alienação é bastante responsável pela falta de boas alternativas políticas (que levam o Alexandre e o Mojo a falar que no Brasil não há democracia), creio que uma pessoa pouco preocupada com política, partidos e eleições ainda tem uma pletora de decisões e ações triviais que irão ter efeito direto na melhoria ou piora de nossa sociedade.

A ÚNICA coisa que eu disse, e repito, é que lavar as mãos e votar nulo, em branco ou justificar o voto como forma de protesto, é uma atitude hipócrita e covarde. E por favor, não me façam ter que escrever uma explicação maior do que o próprio post de novo.

March 13, 2006

Douala é aqui

Há algum tempo, eu ando interessado em ler o Undercover Economist, de Tim Harford. Mas depois de ler este artigo na Reason, explicando a dinâmica que leva um país pobre a permanecer deste jeito, fui correndo encomendar o livro.

No artigo ele fala sobre Douala, em Camarões, um dos lugares mais pobres do mundo. Mas creio que não há uma vírgula de sua análise que não se encaixe como uma luva na maneira como as coisas funcionam no Brasil. Por exemplo:

É muito tentador para o visitante em Camarões dar de ombros e explicar a pobreza do país presumindo que Camaroneses são todos idiotas. Camaroneses não são mais espertos ou idiotas do que o resto de nós. Enganos aparentemente estúpidos são tão onipresentes em Camarões que a incompetência não pode ser toda a explicação. Há algo mais sistemático funcionando.

É uma boa advertência para analistas de todas as vertentes ideológicas, que tanto gostam de apontar o “povo brasileiro” como bode expiatório para toda sorte de males que afetam nosso país. Passado o ímpeto inicial de culpar o povo, Harford pinta um quadro que deve parecer muito familiar para qualquer pessoa com um pouco de senso crítico.

Mancur Olson mostrou que a cleptocracia no topo retarda o desenvolvimento dos países pobres. Ter um ladrão como presidente não significa necessariamente a ruína; o presidente pode preferir incentivar a economia e então tomar uma parte maior do bolo. Mas em geral, a pilhagem será difundida seja porque o ditador não tem confiança na duração de seu mandato, seja porque ele precisa que outros roubem afim de manter seu apoio.

A podridão começa com o governo, mas afeta toda a sociedade. Não há sentido em investir em um negócio porque o governo não irá protegê-lo contra ladrões. (Então você mesmo pode muito bem virar um ladrão.) Não há sentido em pagar sua conta de telefone porque nenhum tribunal pode obrigá-lo a pagar. (Então não há sentido em ser uma companhia telefônica.) Não há sentido em estabelecer uma empresa de importação porque serão os funcionários da alfândega que irão se beneficiar. (Então o setor de alfândega não recebe fundos suficientes e intensifica a busca por propina.) Não há sentido em ter uma educação porque os empregos não são baseados em mérito. (E de qualquer jeito, você não pode tomar dinheiro emprestado para as taxas escolares porque o banco não tem como cobrar o empréstimo).

Segundo Harford, teorias econômicas clássicas indicariam que um país com pouca infra-estrutura e recursos humanos como Camarões deveria ser em torno de quatro vezes mais pobre do que os Estados Unidos. No entanto, o país é mais de 50 vezes mais pobre, e estudos indicam, cada vez mais, que a maior parte desta diferença deve ser atribuída à corrupção em níveis governamentais.

O que, ao meu ver, só torna ainda mais preocupante a letargia que parece ter tomado conta do discurso político brasileiro depois do escândalo do mensalão. Ao preferir proteger os comparsas ao invés de promover uma caça às bruxas, o PT parece ter enfim conseguido acabar com o último resquício de crença nas instituições, abrindo caminho para que o Brasil, de uma vez por todas, se torne um lugar onde “é do interesse da maior parte das pessoas tomar atitudes que direta ou indiretamente causam danos a todos os outros”.

March 8, 2006

tão óbvio que chega a ser irritante

So instead of just being honest and straight forward about the whole thing and making it a source of revenue for local, state and federal government, we bury our head in the sand. If we are truly afraid of gambling addiction and ruin, we will find ourselves in far better position to support those in need of help by letting them stay above ground, rather than forcing them underground.
(…)
Its time to make gambling legal on a national basis. Rather than wasting millions on fruitless enforcement efforts, we can gain billions in tax revenues and keep jobs that have migrated offshore for the online gambling industry here in the US.

Jogatina. Drogas. Prostituição. Mark Cuban está defendendo a primeira, mas a lógica pode ser aplicada para um número quase interminável de atividades ilegais mundo afora. De vez em quando até dá vontade de torcer pelo Dallas Mavericks.

February 17, 2006

the boredom, the boredom

Não foram poucas as pessoas que celebraram a surpreendente vitória do Hamas nas eleições palestinas como sendo o começo do fim do grupo terrorista. Afinal de contas, das duas uma: ou eles afirmavam definitivamente sua política anti-Israel, abrindo o caminho para uma declaração formal de guerra, ou baixavam a bola e entravam no jogo diplomático. Parece que decidiram pela segunda opção, já que, como disse o Scott Adams, “é difícil conciliar ‘destruam Israel’ com ‘vamos nos reunir no prédio do parlamento amanhã, ao meio-dia, para falar sobre isso’”.

Esta postura, digamos, cínica surge com força total a cada sinal de recrudescimento da violência ou de que o caminho para a democracia no Oriente Médio não está indo no sentido que o governo norte-americano esperava ao começar a guerra no Iraque. A eleição parlamentar deu uma vitória esmagadora aos xiitas? Não se preocupe, eles vão continuar incentivando a violência e, com isso, acabarão angariando a inimizade do povo que só quer reconstruir o país.

O mesmo raciocínio costuma ser aplicado, pela mesma parcela da intelligentsia, à América Latina. Lula vai se reeleger? Que bom, agora ele enterra o PT e a esquerda de vez. Os uruguaios elegeram um socialista? Que bom, ele vai afundar o país e eles, também, vão aprender que direita ou esquerda é tudo igual. Hugo Cháves? Pfui, esquece, praticamente um ditador que está levando o país à pobreza e à guerra civil. Os bolivianos também não perdem por esperar com seu presidente que mal pisou no palácio e já deixou de lado o discurso de estatização das usinas de gás.

Por fim, cada uma dessas vitórias da esquerda latino-americana, ou de radicais muçulmanos no Oriente Médio, acaba celebrada como confirmação de que Washington está no caminho certo, e precisa apenas se manter firme e servir como o exemplo que, cedo ou tarde, todos irão se dar conta que é aquele a ser seguido.

Bom, acho que se alguém ainda duvidava das minhas raízes esquerdistas não tem mais com que se preocupar. Mas embora pareça, este não é um desabafo anti-direita, mas sim um desabafo anti-maniqueísmo. A verdade é que ando de saco cheio de ler comentários sobre política ultimamente, porque tudo cada vez mais se reduz a implicâncias de criança, entre os “da direita” e os “da esquerda”, “conservadores” e “liberais”, ou “republicanos” e “democratas”.

A Folha de S. Paulo publica uma espécie de editorial canhestro sobre a revitalização de uma direita ideológica no Brasil, que sempre existiu, simplesmente nunca teve que lidar com um suposto governo de esquerda. Alguns, então, colocam o capuz e se mostram ressentidos de que “a direita” seja tratada como uma coisa só, sem menção a autores importantes e suas diferentes tendências, como se costumassem tratar esquerdistas com tal respeito.

O Mario Sergio Conti acha que dois filmes com uma temática de esquerda-paranóica, feitos por um dos atores mais afinados com esta esquerda-paranóica, em uma terra onde o que mais abunda são atores afinados com esta esquerda-paranóica, na verdade são um sinal dos tempos. O Francisco, profundo conhecedor da realidade norte-americana depois de anos vivendo no e estudando o País, diz que na verdade os filmes são um sinal exatamente do oposto.

Já o Smart Shade of Blue, pilar da blogosfera brasileira de esquerda, diz que o Hugo Chavez é um fascista em potencial, mas que o pessoal da “direita anaeróbica” deveria prestar atenção em como ele se sustenta no poder através do enriquecimento sustentado no petróleo, e nas semelhanças do caso com os EUA. Os mesmos EUA que levam ele e o Paulo a ficarem trocando gracinhas através de seus blogs, e com a leva de comentários inúteis que sói surgir deste tipo de situação.

E nem vamos entrar na questão do punditry norte-americano, onde Andrew Sullivan é chamado de blogueiro de esquerda por chamar atenção à absurda concentração de poder no Executivo sob a tutela de George W. Bush e alguns outros ideais tipicamente conservadores, mas Glenn “Instapundit” Reynolds, com sua postura tipicamente holier than thou, acha que estão todos fazendo muito barulho por nada.

Tudo isso, sinceramente, é um saco. Eu leio, leio, e só consigo ver duas crianças na sala do S.O.E. de um colégio, gritando “foi ele que começou” a plenos pulmões. E de saco cheio, pouco sinto vontade de postar por aqui. Mas sempre há esperança, assim como sempre há blogs que merecem ser lidos. Quando eu puder apontar 10 blogueiros ali no meu blogroll com a qualidade do Matthew Yglesias ou do Cleber, vou ficar bem menos de saco cheio.

January 11, 2006

“autoritário? eu?”

Auxiliar que elabora crítica diária da imprensa para Luiz Inácio Lula da Silva desde 1998, Bernardo Kucinski disse em entrevista ao site “Agência Repórter Social” que “o governo Lula decepcionou” porque “não foi capaz de mudar o país como prometeu”. Afirmou que o presidente “eliminou a necessidade da imprensa” e que o petista “não se submete a questionamentos” de jornalistas, com quem teria tido relação “sempre muito ruim”.

E esse é o cara cujos livros e textos sobre jornalismo são largamente sugeridos por professores em faculdades de jornalismo (ou, pelo menos, na Fabico, mas creio que não apenas nela). Fico só imaginando o tamanho do rebuliço se esse amontoado de bobagem tivesse sido dito nos EUA pelo Karl Rove ou algum outro assessor do Bush.

December 15, 2005

blogueiros brasileiros…

É em horas como essa que eu sinto falta de que a blogosfera brasileira seja pelo menos parecida com o que a grande mídia gosta de pintá-la.

Alguém vá olhar no blog do Noblat a explicação da lei que permite ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afastar os controladores de uma empresa porque estes aprovaram a venda da empresa sem apresentar a proposta a seus credores. Nada? Quem sabe algo sobre por que, primeiro, as matérias falavam que os credores só teriam poder sobre os planos apresentados por Tanure, e agora não têm uma explicação sequer sobre como a Justiça decide que o plano só será aceito depois de avaliado na reunião de credores da próxima segunda-feira? Também não, né?

Pois é, acontece que os grandes blogs brasileiros são feitos por jornalistas que, obviamente, não sabem de nada. Porque se soubessem, as informações estariam nas matérias. Mas não, as matérias não citam nem ao menos quais são as leis evocadas pelos juízes, para que seus leitores possam tentar, eles próprios, interpretá-las. Alguém conhece um bom blog de um advogado?

December 9, 2005

brincadeira de criança

A juíza federal substituta Margarete Morales Simão Martinez Sacristan, da 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo, determinou à Folha Online que não divulgue reportagens da Folha sobre o processo criminal que apura a contratação da empresa Kroll, pela Brasil Telecom, para investigar a concorrente Telecom Italia.

Vamos fazer um exercício. Eu digo que isto é um absurdo. Agora, você leitor entra nos comentários e deixa o adjetivo que lhe parece mais apropriado.

November 23, 2005

energia daltônica

Ontem, a Folha Online publicava a seguinte informação:

O Brasil deve encarar o esgotamento de fontes hidrelétricas e também de petróleo como oportunidade para desenvolver seu potencial na área de agroenergia. A avaliação foi feita pelo secretário de Planejamento e Desenvolvimento Estratégico do Ministério de Minas e Energia, Márcio Pereira Zimmermann.

Na onda da energia verde, o Brasil aposta em especial no biodiesel feito a partir de óleo de soja para entrar no mercado internacional e diversificar as fontes de energia do país. Uma lei já aprovada obrigará a mistura de 2% de biodiesel ao diesel combustível a partir de 2008 e de 5% a partir de 2013. A previsão, como diz a matéria, é que a capacidade instalada atualmente não seja capaz de suprir sequer a demanda interna quando chegar 2008.

Enquanto isso, diz a New Scientist:

The drive for “green energy” in the developed world is having the perverse effect of encouraging the destruction of tropical rainforests. From the orang-utan reserves of Borneo to the Brazilian Amazon, virgin forest is being razed to grow palm oil and soybeans to fuel cars and power stations in Europe and North America. And surging prices are likely to accelerate the destruction.

Para quem não sabe, o governo Lula já alcançou o segundo lugar na história em termos de desmatamento da Amazônia, ficando atrás apenas do primeiro ano do governo de Fernando Henrique Cardoso. Maior responsável pelo desmatamento? A soja. Será apenas coincidência que a maior parte do desmatamento ocorre no estado do Mato Grosso, cujo governador Blairo Maggi é o maior produtor individual de soja do mundo?

October 25, 2005

da vergonha de ser brasileiro

É raro, mas tem horas em que eu fico com um pouco de vergonha de ser brasileiro. Esta discussão sobre quem deve controlar a Internet é um destes casos. Olhem bem com quem o Brasil se alia na tentativa de forçar uma diminuição do controle norte-americano sobre a rede: China e Irã. Dois países reconhecidos internacionalmente pelas suas preocupações em relação à liberdade de expressão.

Sinceramente, vou com a Nominet em apoiar a proposta argentina de resolver essa lambança. Não havendo a possibilidade de simplesmente ninguém ter controle sobre o bicho, não consigo pensar em opção melhor do que ter os EUA por trás da Internet.

Tenho arrepios só de imaginar o desastre que seria passar seu controle para as mãos da União Européia (aquela do país que proíbe o uso de símbolos religiosos por alunos de escolas públicas, e do país que multa 20 cidadãos por usarem caracteres que não fazem parte do alfabeto em um cartaz, durante uma celebração de ano novo). E peço que não mencionem aquela outra organização supra-mundial, porque senão eu tenho pesadelos.

Mas por mais que alguém tenha medo de ações unilaterais por parte do governo do país com o maior histórico de defesa das liberdades civis e da livre expressão no mundo, o que diabos passa pela cabeça de um diplomata que resolve se aliar à China e ao Irã? Começo a pensar em rever minhas opiniões sobre o esclarecimento e a inteligência do Celso Amorim.

não entendo

Parece que a linha oficial de interpretação do resultado do referendo é que tivemos uma vitória da campanha e do marketing do “não”, que foi capaz de criar a identificação do povo com a idéia de que ser favorável à proibição seria abrir mão de um direito garantido constitucionalmente. Eu já comentei, em outras situações, meu ceticismo quanto à idéia de que não ter acesso a armas pode ser equivalente a não ter o direito à legítima defesa, mas ainda assim esse raciocínio me incomoda por dois motivos.

Primeiro, que não acho que estou louco ao imaginar que uma vitória do “sim” teria sido recebida como a vitória da esperança, de um ideal de mundo pacífico e sem armas. Ou seja, a vitória teria sido dos ideais, enquanto no caso do “não” a vitória é da propaganda que levou os eleitores a se identificarem com os ideais. Embora seja um discurso aceitável por parte dos defensores da proibição, como o coordenador da Viva Rio, me incomoda essa facilidade por parte da inteligentsia em geral de rapidamente desconsiderar os recados que vêm das urnas.

Mas mais do que isso, me incomoda o raciocínio que se segue quando falam em uma vitória da propaganda do “não”: de que a campanha pelo “sim” deveria ter sido mais rápida em mostrar ao eleitor que este direito, na verdade, só está ao alcance de alguns poucos privilegiados, devido ao alto custo de registrar uma arma e/ou pagar por seu porte. Simplesmente não consigo entender como este tipo de raciocínio poderia servir para atrair eleitores para o lado da proibição.

Por um acaso alguém sente a necessidade de proibir a venda de BMWs, Mercedes ou Ferraris porque só os ricos têm acesso a elas? Pelo contrário, me pareceria lógico que quem se sente injustiçado por isso lutasse por maneiras de torná-las acessíveis aos mais pobres. Ora, não é estranho que com a vitória do “não”, já tenha gente se sentindo autorizada a lutar por um relaxamento do Estatuto do Desarmamento.

Além disso, há aqueles que, como eu, não se opõem às dificuldades impostas sobre aqueles que querem comprar armas. Os altos preços do registro e do porte se explicam pelo alto preço que aquela arma pode custar em gastos de saúde no caso de ser utilizada de maneira inadequada. Assim, se esperamos que o Estado pague pelo tratamento de pessoas vítimas da violência, nada mais justo que ele cobre uma espécie de seguro obrigatório dos donos de arma.

Assim, não vejo como um eleitor que se identifique com a hipótese de que votar “sim” seria abrir mão de um direito pessoal possa se sensibilizar com o fato de este direito só ser acessível a uma camada privilegiada da sociedade. Algum leitor se habilita a demonstrar o quanto sou idiota e não estou conseguindo ver o óbvio ululante?

October 24, 2005

repercuta o “não”

O resultado razoavelmente autoritativo do referendo sobre a proibição do comércio de armas está recebendo alguma atenção internacionalmente. Dois dos mais influentes blogs norte-americanos, o Volokh Conspiracy e o InstaPundit, estão com posts sobre a vitória do “não”. Por enquanto, a mídia brasileira parece calma, mas imagino que a segunda-feira trará uma avalanche de artigos, editoriais e análises furadas sobre o significado e os efeitos deste referendo.

No entanto, foi exatamente para situações como essa que o BananaPundits foi criado, para que aqueles que não falam português possam ter uma idéia de como os tais formadores de opinião brasileiros estão tratando estes assuntos. Embora o blog esteja longe do formato que eu espero que ele alcance, acho que o momento é importante o suficiente para tentar fazê-lo minimamente relevante. Para tanto, seria interessante que ele agregasse o máximo possível de informações relevantes nos próximos dias.

Assim, eu e o Francisco fazemos um apelo para todos minimamente interessados e que têm um pouquinho de tempo para ajudar que o façam. O ideal é que nos enviem traduções de notícias ou artigos de fontes de razoável audiência e repercussão, mas qualquer coisa que possa parecer pertinente aos fins do blog, está valendo. A idéia é servir como um agregador de informações produzidas por brasileiros, então indicações de blogs ou artigos alheios também serão muito bem vindos.

Quem quiser ajudar, me mande um e-mail para solonbroARROBAgmailPONTOcom, com “BananaPundits” em algum lugar do título. E passem o apelo adiante.