July 31, 2006

não há dignidade na morte

Janer Cristaldo:

Que Israel tem necessidade de extirpar o Hizbollah de suas fronteiras, disto só os insensatos discordam. Que o bombardeio da cidade libanesa de Qana, com 60 vítimas civis - entre elas 37 crianças - foi uma insensatez, disto só os fanáticos defensores de Israel discordam.

Michael Totten:

The fog of war makes it impossible for me or anyone else to determine whether or not Israel’s war against Hezbollah is succeeding or failing militarily. But it’s painfully obvious that Israel’s attempt to influence Lebanese politics in its favor is an absolute catastrophe right now. […] The (second in a decade) attack on Qana that killed scores of civilians has all but cemented the Lebanese public and Hezbollah together.

Fico feliz de ver pessoas normalmente identificadas com visões políticas de direita tendo a clareza de visão de cobrar atitudes corretas por parte de Israel. Parece que este ataque em Qana, inclusive, foi a última gota para que até mesmo os Estados Unidos se posicionassem pela necessidade de um cessar-fogo imediato. Como já disse em outras ocasiões, acho que a guerra israelense é 100% legítima, mas que a maneira com que a trava pode e deve ser questionada.

O que acho mais engraçado, no entanto, é ver ávidos defensores da tal guerra assimétrica reclamarem porque a imprensa dá mais espaço para as mortes de civis libaneses do que de israelenses. Talvez o fato de que, até agora, o número de mortos seja 10 vezes maior ao norte da fronteira tenha algo a ver com isso?

July 19, 2006

that middle east shit

E quando a gente acha que pensou em toda merda possível que pode acontecer no Oriente Médio, rapidamente a realidade bate à porta:

Turkish officials signaled Tuesday they are prepared to send the army into northern Iraq if U.S. and Iraqi forces do not take steps to combat Turkish Kurdish guerrillas there — a move that could put Turkey on a collision course with the United States.

Não fosse trágico, a idéia de um país de maioria muçulmana invadindo o Iraque à revelia dos Estados Unidos para lidar com milícias curdas seria, no mínimo, interessante. Mas especialmente considerando os ânimos na região atualmente, parece mais um passo na direção de uma merda bem grande e fedorenta, para utilizar o vocabulário do sempre articulado presidente norte-americano.

Quanto à investida israelense no Líbano, a cada dia compartilho um pouco mais da dúvida de Tim Cavanaugh: qual, diabos, é o plano de Israel? Atacar prédios em regiões residenciais, bases do exército libanês e bairros de cristãos e sunitas anti-Hezbollah em Beirute e ao norte do país não parece fazer muito sentido. Além de que, como diz o jornalista da Reason, Israel não poderia, com um mínimo de credibilidade, dizer que tem feito tudo que pode para evitar a morte de civis.

Pois ontem, tinha ficado com uma pulga na orelha ao ler isso:

There are two big ways to interpret this: that this is about Sunni-Shia tensions […] or that it is about “pro-American dictators” opposing a popular resistance movement in defiance of their own publics. In spite of my sarcastic labels above, I incline more to the latter view. The Muslim Brotherhood is as Sunni as they come, but it has come out strongly in support of Hezbollah. Al-Jazeera is often accused of being the “Sunni” network by angry non-Sunni Arab Iraqis, but it has been voicing a populist Arab message of support for Hezbollah. Jordanian and Egyptian public opinion is really Sunni… and really pro-Hezbollah. I just don’t see attitudes towards Hezbollah at the popular level breaking down along sectarian lines. This is more about the conservative Arab powers asserting themselves against their regional rivals and against their own people, while winning points with America in the process.

Considerando o tom crítico do resto do post e do blog, achei que pudesse ser apenas o mesmo tipo de paranóia que leva pessoas a dizer que o ataque foi causado pelo medo israelense em ver um vizinho árabe prosperando economicamente. Mas o sr. Cavanaugh parece igualmente preocupado:

The opinions of the masses matter even less in the Arab world than they do in the democratic world, and a good pitch to the actual leaders would go something like this: “Yes, yes, the Israelis are brutes and villains and Jews and so forth, but they’ve been there your whole life and they’ve never threatened your position. This radical Shiite cleric, on the other hand, he’s actually got ideas, and ideas do threaten your position.”

No entanto, por mais que a idéia faça bastante sentido em explicar a rara firmeza com que Arábia Saudita, Egito e Jordânia botaram a culpa do conflito na atitude do Hezbollah, ainda não consigo aceitá-la como suficientemente interessante a Israel. A simpatia desses países em uma eventual guerra com Síria e/ou Irã seria bem-vinda, obviamente, mas parece difícil crer que traria benefícios suficientes para contrabalançar o número de novos terroristas e raivosos anti-semitas que estão sendo criados com estes ataques.

July 15, 2006

tempos interessantes

“Não estamos lutando para que vocês nos ofereçam alguma coisa. Estamos lutando para eliminá-los”. - Hussein Massawi, antigo líder do Hezbollah

Há seis anos, em maio de 2000, as forças militares israelenses se retiraram da faixa de segurança no norte do país, que ajudava a proteger suas cidades fronteiriças de ataques do Hezbollah, no sul do Líbano. À época, o então primeiro ministro Ehud Barak disse que se o grupo xiita, que considerava a retirada uma vitória, se aproveitasse da situação para causar danos a Israel, o Líbano sofreria um golpe que jamais esqueceria.

Em outubro, três soldados israelenses foram seqüestrados em Har Dov, na fronteira com o Líbano. No mesmo dia, palestinos destruíram a tumba de José, em Nablus (Cisjordânia), uma semana depois de iniciada a segunda intifada. Preocupados em não ter que encarar batalhas em duas frentes, Israel iniciou uma política de contenção do Hezbollah, respondendo a eventuais ataques mas nunca usando de muita força e até mesmo fazendo negociações de troca de prisioneiros.

Em 2004, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1559, estabelecendo que o Hezbollah deveria ser desarmado pelo governo libanês e que forças estrangeiras deveriam deixar o país. Com a revolução do Cedro, seguindo ao assassinato do ex-premier Rafik Hariri, o país conseguiu finalmente expulsar todas as forças sírias de seu território e ter uma eleição efetivamente democrática. Infelizmente, o Hezbollah conseguiu suficiente espaço no parlamento para conseguir vetar quaisquer tentativas do governo de desarmar as milícias em seu território.

É essa resolução que o premier israelense Ehud Olmert disse que irá levar a cabo, depois que dois soldados da IDF foram seqüestrados e outros oito foram mortos em uma ação do grupo xiita na fronteira com o Líbano na última quarta-feira. Esperava-se que Israel fosse tratar a situação com a candura de sempre, devido à preocupação de criar duas frentes de batalha - já que na Faixa de Gaza continuava a operação em busca de Gilad Shalit, cabo do exército israelense raptado por palestinos em 25 de junho. Mas três dias depois o que temos é, a rigor, uma guerra em duas frentes.

Toda essa gigantesca introdução para dizer que, pela primeira vez na vida, a situação no Oriente Médio de fato me preocupa. Olmert diz que a ação não irá parar enquanto o Hezbollah não for desarmado, mas o seu exército já viu dias melhores. Já o chefe do grupo terrorista diz que está disposto a travar uma guerra aberta com Israel, e que pode atacar a cidade de Haifa ou além. Segundo o Ha’aretz, o grupo teria mísseis iranianos capazes de alcançar Tel Aviv.

Israel bombardeia o aeroporto e mantém navios de guerra na costa libanesa (um deles atingido por mísseis disparados por palestinos, que também teriam acertado um navio civil egípcio), além de bloquear a fronteira. Enquanto isso, mais de 700 mísseis Katyusha já teriam caído sobre os mais variados pontos de cidades no norte israelense.

A França e boa parte da Europa questionam a ação israelense e o imbecil do Hugo Chávez diz que o apoio americano a Israel está levando o Oriente Médio um novo holocausto, enquanto a Arábia Saudita diz que a culpa é de milícias dentro do Líbano, dando combustível para quem acha que é o início de uma coalizão regional contra Síria e Irã. Há quem esteja comparando Gilad Shalit com o duque Ferdinand, e não foram poucos os analistas que vi falaram em “frente oriental” de uma Terceira Guerra Mundial.

Obviamente, a coisa ainda não pára por aí. Mahmoud Abbas está ameaçando extinguir a Autoridade Palestina, o que significaria que Israel, na eventualidade de conseguir suprimir o governo do Hamas, voltaria a ter a responsabilidade de cuidar da Faixa de Gaza, coisa que não quer nem pode fazer com suas atuais condições. No Egito, o presidente Mubarak diz que um acordo havia sido feito para a soltura de Shalit, mas que as negociações foram por água abaixo por pressão do Hamas.

E como se a merda por lá não fosse suficiente, parece que a guerra civil no Iraque é quase inevitável. E na Índia, serviços de inteligência dizem que seus colegas paquistaneses têm culpa pelos bombardeios em Mumbai, piorando ainda mais o ânimo entre os países.

Há a esperança de que o fim disso tudo seja positivo: Israel consegue fragilizar o Hezbollah o suficiente para que o exército libanês faça o que a ONU lhe mandou fazer, o Hamas é forçado a deixar a Faixa de Gaza com o rabo entre as pernas e cria-se uma mínima cooperação entre os países da região para lidar com a ameaça de Síria e Irã. Mas também pode ser que, realmente, estejamos presenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial, em cujo caso não gosto nem de pensar nas possíveis conseqüências. Só sei que, pela primeira vez na vida, não bocejo mais ao ler manchetes que envolvam Israel e mísseis.

June 23, 2006

política made in Uganda

Ugandan police have banned people from playing pool during the daytime because it encourages crime, local media said Wednesday.

Pois eis aí uma boa idéia para nosso legislativo, já que proibimos os cassinos, bingos e o jogo do bicho por razões bem parecidas. O mais triste é ler que a sinuca é um dos passatempos preferidos por donos de bar por trazer rendimentos sem precisar de eletricidade, algo que traz custos e ainda por cima nem sempre funciona no país. (via To the People)

March 13, 2006

Douala é aqui

Há algum tempo, eu ando interessado em ler o Undercover Economist, de Tim Harford. Mas depois de ler este artigo na Reason, explicando a dinâmica que leva um país pobre a permanecer deste jeito, fui correndo encomendar o livro.

No artigo ele fala sobre Douala, em Camarões, um dos lugares mais pobres do mundo. Mas creio que não há uma vírgula de sua análise que não se encaixe como uma luva na maneira como as coisas funcionam no Brasil. Por exemplo:

É muito tentador para o visitante em Camarões dar de ombros e explicar a pobreza do país presumindo que Camaroneses são todos idiotas. Camaroneses não são mais espertos ou idiotas do que o resto de nós. Enganos aparentemente estúpidos são tão onipresentes em Camarões que a incompetência não pode ser toda a explicação. Há algo mais sistemático funcionando.

É uma boa advertência para analistas de todas as vertentes ideológicas, que tanto gostam de apontar o “povo brasileiro” como bode expiatório para toda sorte de males que afetam nosso país. Passado o ímpeto inicial de culpar o povo, Harford pinta um quadro que deve parecer muito familiar para qualquer pessoa com um pouco de senso crítico.

Mancur Olson mostrou que a cleptocracia no topo retarda o desenvolvimento dos países pobres. Ter um ladrão como presidente não significa necessariamente a ruína; o presidente pode preferir incentivar a economia e então tomar uma parte maior do bolo. Mas em geral, a pilhagem será difundida seja porque o ditador não tem confiança na duração de seu mandato, seja porque ele precisa que outros roubem afim de manter seu apoio.

A podridão começa com o governo, mas afeta toda a sociedade. Não há sentido em investir em um negócio porque o governo não irá protegê-lo contra ladrões. (Então você mesmo pode muito bem virar um ladrão.) Não há sentido em pagar sua conta de telefone porque nenhum tribunal pode obrigá-lo a pagar. (Então não há sentido em ser uma companhia telefônica.) Não há sentido em estabelecer uma empresa de importação porque serão os funcionários da alfândega que irão se beneficiar. (Então o setor de alfândega não recebe fundos suficientes e intensifica a busca por propina.) Não há sentido em ter uma educação porque os empregos não são baseados em mérito. (E de qualquer jeito, você não pode tomar dinheiro emprestado para as taxas escolares porque o banco não tem como cobrar o empréstimo).

Segundo Harford, teorias econômicas clássicas indicariam que um país com pouca infra-estrutura e recursos humanos como Camarões deveria ser em torno de quatro vezes mais pobre do que os Estados Unidos. No entanto, o país é mais de 50 vezes mais pobre, e estudos indicam, cada vez mais, que a maior parte desta diferença deve ser atribuída à corrupção em níveis governamentais.

O que, ao meu ver, só torna ainda mais preocupante a letargia que parece ter tomado conta do discurso político brasileiro depois do escândalo do mensalão. Ao preferir proteger os comparsas ao invés de promover uma caça às bruxas, o PT parece ter enfim conseguido acabar com o último resquício de crença nas instituições, abrindo caminho para que o Brasil, de uma vez por todas, se torne um lugar onde “é do interesse da maior parte das pessoas tomar atitudes que direta ou indiretamente causam danos a todos os outros”.

March 8, 2006

tão óbvio que chega a ser irritante

So instead of just being honest and straight forward about the whole thing and making it a source of revenue for local, state and federal government, we bury our head in the sand. If we are truly afraid of gambling addiction and ruin, we will find ourselves in far better position to support those in need of help by letting them stay above ground, rather than forcing them underground.
(…)
Its time to make gambling legal on a national basis. Rather than wasting millions on fruitless enforcement efforts, we can gain billions in tax revenues and keep jobs that have migrated offshore for the online gambling industry here in the US.

Jogatina. Drogas. Prostituição. Mark Cuban está defendendo a primeira, mas a lógica pode ser aplicada para um número quase interminável de atividades ilegais mundo afora. De vez em quando até dá vontade de torcer pelo Dallas Mavericks.

February 17, 2006

the boredom, the boredom

Não foram poucas as pessoas que celebraram a surpreendente vitória do Hamas nas eleições palestinas como sendo o começo do fim do grupo terrorista. Afinal de contas, das duas uma: ou eles afirmavam definitivamente sua política anti-Israel, abrindo o caminho para uma declaração formal de guerra, ou baixavam a bola e entravam no jogo diplomático. Parece que decidiram pela segunda opção, já que, como disse o Scott Adams, “é difícil conciliar ‘destruam Israel’ com ‘vamos nos reunir no prédio do parlamento amanhã, ao meio-dia, para falar sobre isso’”.

Esta postura, digamos, cínica surge com força total a cada sinal de recrudescimento da violência ou de que o caminho para a democracia no Oriente Médio não está indo no sentido que o governo norte-americano esperava ao começar a guerra no Iraque. A eleição parlamentar deu uma vitória esmagadora aos xiitas? Não se preocupe, eles vão continuar incentivando a violência e, com isso, acabarão angariando a inimizade do povo que só quer reconstruir o país.

O mesmo raciocínio costuma ser aplicado, pela mesma parcela da intelligentsia, à América Latina. Lula vai se reeleger? Que bom, agora ele enterra o PT e a esquerda de vez. Os uruguaios elegeram um socialista? Que bom, ele vai afundar o país e eles, também, vão aprender que direita ou esquerda é tudo igual. Hugo Cháves? Pfui, esquece, praticamente um ditador que está levando o país à pobreza e à guerra civil. Os bolivianos também não perdem por esperar com seu presidente que mal pisou no palácio e já deixou de lado o discurso de estatização das usinas de gás.

Por fim, cada uma dessas vitórias da esquerda latino-americana, ou de radicais muçulmanos no Oriente Médio, acaba celebrada como confirmação de que Washington está no caminho certo, e precisa apenas se manter firme e servir como o exemplo que, cedo ou tarde, todos irão se dar conta que é aquele a ser seguido.

Bom, acho que se alguém ainda duvidava das minhas raízes esquerdistas não tem mais com que se preocupar. Mas embora pareça, este não é um desabafo anti-direita, mas sim um desabafo anti-maniqueísmo. A verdade é que ando de saco cheio de ler comentários sobre política ultimamente, porque tudo cada vez mais se reduz a implicâncias de criança, entre os “da direita” e os “da esquerda”, “conservadores” e “liberais”, ou “republicanos” e “democratas”.

A Folha de S. Paulo publica uma espécie de editorial canhestro sobre a revitalização de uma direita ideológica no Brasil, que sempre existiu, simplesmente nunca teve que lidar com um suposto governo de esquerda. Alguns, então, colocam o capuz e se mostram ressentidos de que “a direita” seja tratada como uma coisa só, sem menção a autores importantes e suas diferentes tendências, como se costumassem tratar esquerdistas com tal respeito.

O Mario Sergio Conti acha que dois filmes com uma temática de esquerda-paranóica, feitos por um dos atores mais afinados com esta esquerda-paranóica, em uma terra onde o que mais abunda são atores afinados com esta esquerda-paranóica, na verdade são um sinal dos tempos. O Francisco, profundo conhecedor da realidade norte-americana depois de anos vivendo no e estudando o País, diz que na verdade os filmes são um sinal exatamente do oposto.

Já o Smart Shade of Blue, pilar da blogosfera brasileira de esquerda, diz que o Hugo Chavez é um fascista em potencial, mas que o pessoal da “direita anaeróbica” deveria prestar atenção em como ele se sustenta no poder através do enriquecimento sustentado no petróleo, e nas semelhanças do caso com os EUA. Os mesmos EUA que levam ele e o Paulo a ficarem trocando gracinhas através de seus blogs, e com a leva de comentários inúteis que sói surgir deste tipo de situação.

E nem vamos entrar na questão do punditry norte-americano, onde Andrew Sullivan é chamado de blogueiro de esquerda por chamar atenção à absurda concentração de poder no Executivo sob a tutela de George W. Bush e alguns outros ideais tipicamente conservadores, mas Glenn “Instapundit” Reynolds, com sua postura tipicamente holier than thou, acha que estão todos fazendo muito barulho por nada.

Tudo isso, sinceramente, é um saco. Eu leio, leio, e só consigo ver duas crianças na sala do S.O.E. de um colégio, gritando “foi ele que começou” a plenos pulmões. E de saco cheio, pouco sinto vontade de postar por aqui. Mas sempre há esperança, assim como sempre há blogs que merecem ser lidos. Quando eu puder apontar 10 blogueiros ali no meu blogroll com a qualidade do Matthew Yglesias ou do Cleber, vou ficar bem menos de saco cheio.

February 16, 2006

hehehe

Jesse Walker, no Hit&Run, acaba de descobrir o melhor plano de retirada das tropas do Iraque: publique alguns cartuns ofensivos a Maomé.

January 31, 2006

estupidez a galope

“They’re building a new medium on the backs of our industry, without paying for any of the content,” Ali Rahnema, managing director of the association, told Reuters in an interview.

“The news aggregators are taking headlines, photos, sometimes the first three lines of an article — it’s for the courts to decide whether that’s a copyright violation or not.”

Agora são as agências de notícias e jornais internacionais que estão brabinhos porque alguém ousa deixar as pessoas mais interessadas em seus produtos. Eu queria ver o Leibniz falar em melhor dos mundos possíveis se tivesse nascido na nossa época.

January 25, 2006

bruster

A decisão da Google de inaugurar uma versão chinesa de seu serviço de buscas, se sujeitando a todas as censuras impostas pelo governo comunista chinês, tem dado o que falar entre a ala conservadora da blogosfera. Especialmente por que, alguns dias antes, ela foi a única entre a negar uma requisição do Departamento de Justiça norte-americano para que serviços de busca entregassem dados sobre comportamentos de usuários.

Em seu blog, o Cláudio diz que “uma coisa é peitar o Tio Sam, com toda a Constituição para dar suporte. Outra é encarar os chineses“. Sinceramente, uma declaração pouco feliz, digna de alguém que, embora talvez não saiba, ainda é vítima da aura de inocência que envolve a gigante californiana.

Para começo de conversa, censura não é novidade para a Google. Eles já demitiram funcionário por colocar comentários em seu blog sobre o ambiente de trabalho na empresa. Já disseram que vão passar um ano sem falar com repórteres da C|Net por estes terem usado informações pessoais (conseguidas através de buscas no próprio Google) do CEO da empresa em uma matéria sobre privacidade digital. E também já estão acostumados a censurar sites anti-semitas e pro-Nazismo na Alemanha e França, por causa de leis federais que regulam este tipo de material.

Além disso, aceitar a censura chinesa não é uma questão de “não peitar” o governo comunista. Assim como nos casos alemão e francês, eles simplesmente estão se submetendo previamente a leis federais em troca de poder fazer negócios no país (sempre lembrando que, quando censuram páginas, eles colocam alertas informando o fato para o usuário). “Não peitar” o governo chinês seria no caso de este exigir que a empresa ajudasse a identificar e prender um jornalista e a Google obedecesse.

December 14, 2005

tédio

Poucos assuntos em voga ultimamente me parecem tão idiotas e dignos de ignorância quanto a execução de Tookie Williams. No entanto, a história parece não morrer, recebendo a cada dia tratamento dos mais sem pé nem cabeça.

Particularmente, não sei quando foi a última vez que um governador norte-americano concedeu clemência a algum condenado à pena de morte, ainda mais em se tratando de alguém obviamente culpado dos crimes pelos quais foi condenado. Não imagino, assim, que em algum momento tenha existido a possibilidade de Schwarzenegger evitar a execução de Williams.

Por outro lado, sou francamente contra a pena capital em qualquer circunstância, por princípios (que nem têm tanto a ver com direitos humanos, mas mais com o fato de que o sistema é falho e gente inocente vai acabar sendo executada). E embora usar a desculpa de que Williams havia recebido nomeações para o prêmio Nobel da Paz seja uma bobagem, o fato é que depois que foi para a prisão, o homem deixou a violência de lado e, de um jeito ou de outro, prestava um serviço à sociedade através dos livros que buscavam evitar que jovens se juntassem a gangues. As duas razões me são mais do que suficientes para achar que Tookie merecia passar o resto da sua vida na cadeia, mas que sua execução foi, no mínimo, desnecessária.

Agora, a indignação da esquerda mundo afora parece-me um pouco exagerada. A proposta de tirar o nome de Schwarzenegger de um estádio na Áustria e substituí-lo pelo de Williams, por exemplo, beira o patético. Por sua vez, a resposta da direita me parece igualmente boba. Conservadores comemorando a execução de um criminoso e a suposta mensagem mandada pelo governador da Califórnia ao hoi polloi é coisa de criança mimada. E dizer que a indignação dos europeus é uma demonstração de anti-americanismo é de uma paranóia típica do ânimo político que se vê nos EUA atualmente e que tanto me faz não querer passar por lá tão cedo.

Defensores dos direitos humanos deveriam procurar um garoto-propangada cuja morte seja um pouco menos justificável para defensores da pena de morte do que Tookie Williams. E conservadores deviam ficar felizes que o governador não se dobrou a seus amigos do ramo do entretenimento e tratar o insignificante assunto com o silêncio que merece. Ficaríamos todos mais felizes.

December 7, 2005

eu sou anti-sionista

Este post do David Bernstein sobre o sionismo é excelente, até a hora em que ele comete um deslize clássico dos defensores de um estado judeu:

In short, to be a Zionist should be no more controversial than to be a “Pakistanist” (believing that Pakistan should be allowed to exist), or a “Polandist” (believing that Poland should be allowed to exist)–imagine if the founders of Israel had simply called it Zion, as some wished.

Não. Ainda que, como ele diz, não haja nada no sionismo que impeça a existência de Israel como um estado secular, ser a favor dessa existência não é a mesma coisa que ser a favor da existência do Paquistão ou da Polônia. É, sim, a mesma coisa que ser a favor do Kurdistão ou de um estado Palestino, i.e., a mesma coisa que ser a favor da existência de um país como representante de uma etnia ou religião. Mas não é, de maneira alguma, a mesma coisa que ser a favor da simples existência de um país.

Eu entendo que sionistas tenham ressentimento de quem se apropria do termo como significando uma visão racista e isolacionista de um estado judeu. Mas isto não é desculpa para utilizarem o que é, a rigor, a mesma falácia e dizer que Israel é um país como qualquer outro e, portanto, todos deveríamos ser sionistas orgulhosos.

December 1, 2005

reality check

Digamos que você se considera um libertário. Você também acha que a mídia liberal (ou comunista, no caso brasileiro) tem tamanho viés em suas reportagens que tornam as notícias praticamente inúteis, especialmente no que concerne a cobertura da guerra no Iraque e a política norte-americana.

Diante das notícias de que o exército norte-americano está comprando jornais no Iraque para publicar propaganda, no intuito de melhorar a opinião dos iraquianos sobre o andamento da guerra, você decide que em uma guerra este tipo de coisa é desculpável. E, afinal de contas, não é nada pior do que o que faz a grande mídia.

Se por um acaso você se encaixa nessa categoria, Matt Welch tem algumas coisas para lhe dizer sobre o quanto você é idiota. E mesmo que você não se identifique com caras como Glenn Reynolds, acompanhar o Hit and Run, em especial os posts de Welch e Julian Sanchez, certamente irá lhe trazer mais benefícios do que qualquer outra coisa.

November 30, 2005

hehehe

Aproximadamente uma vez por mês, o pessoal do Wonkette publica um post realmente bem bolado e engraçado sobre as peripécias do presidente norte-americano George W. Bush. Então, não deixem de conferir esta demonstração da evolução na visão de Dubya sobre a guerra no Iraque.

November 27, 2005

spin doctors

Neste sábado, dia 26, o senador democrata Joe Biden (Delaware) publicou um artigo de opinião no Washington Post. Ele pede uma política definida de atuação no Iraque, culminando com a retirada do grosso das tropas norte-americanas do país até o fim de 2006.

The question most Americans want answered about Iraq is this: When will our troops come home?

We already know the likely answer. In 2006, they will begin to leave in large numbers. By the end of the year, we will have redeployed about 50,000. In 2007, a significant number of the remaining 100,000 will follow. A small force will stay behind — in Iraq or across the border — to strike at any concentration of terrorists.

Ed Morrisey, citado por Glenn “Instapundit” Reynolds, disse logo depois que:

Senator Joe Biden writes an op-ed for today’s Washington Post that gets the entire war on terror fundamentally wrong — and demonstrates why the Democrats have entirely failed to provide any leadership on Iraq and the wider war.

É a resposta padrão em relação a qualquer crítica democrata à guerra no Iraque, afinal de contas. Pelo menos ele não chamou Biden de covarde. Mas eis que, ainda no sábado, a Casa Branca publica, através de seu porta-voz Scott McClellan, uma nota em relação ao artigo do senador democrata.

There is a strong consensus building in Washington in favor of President Bush’s strategy for victory in Iraq. As the Iraqi security forces gain strength and experience, we can lessen our troop presence in the country without losing our capability to effectively defeat the terrorists. Today, Sen. Biden described a plan remarkably similar to the Administration’s plan to fight and win the war on terror. We welcome Sen. Biden’s voice in the debate. We are pleased he shares our view that the way to a democratic and peaceful Iraq is through aggressively training Iraqi police and soldiers, rebuilding the country’s infrastructure and forging political compromises between Iraqi factions.

Ou seja, a Casa Branca possui um plano de retirada das tropas do Iraque, e este plano é “notavelmente parecido” com o do senador Biden. Aquele mesmo que demontrou porque os “Democratas falharam completamente em fornecer alguma liderança em relação ao Iraque e a guerra maior”. Vai ser interessante ver como os conservadores vão tentar tornar isso uma vitória da atual administração.

Vietnam do avesso?

In Vietnam, the brass talked happy-talk, the press talked to grunts and reported that the war was going worse than we were told.

(…)

It’s not surprising, then, that the more connection people have to the war, the better they think things are going. That’s precisely the opposite of what we saw in Vietnam, of course.

Eu já li este post três vezes, e continuo não conseguindo entender onde está a diferença óbvia que leva Glenn Reynolds a dizer que o Iraque é o oposto do Vietnam. Os militares dizem que está indo tudo bem e a imprensa diz que tudo está indo muito pior do que parece. Se isso não é uma descrição da guerra atual, é melhor eu desistir de me formar.

P.S.: e se o que ele está sugerindo é que, off the record, os militares diziam que tudo estava indo mal no Vietnam, ao contrário desta guerra, então eu gostaria de ver os números sobre o Vietnam, como já disse anteriormente.

November 23, 2005

militares dizem “sim” à guerra

Max Boot, no L.A. Times, fala sobre a diferença de opinião da “mídia apocalíptica” e dos soldados que estão efetivamente lutando, sobre os resultados da guerra do Iraque.

American soldiers are also much more optimistic than American civilians. The Pew Research Center and the Council on Foreign Relations just released a survey of American elites that found that 64% of military officers are confident that we will succeed in establishing a stable democracy in Iraq. The comparable figures for journalists and academics are 33% and 27%, respectively.

Ele segue o argumento com várias explicações sobre as razões que levariam a essa disparidade entre as impressões dos soldados que lá estiveram e os civis que só sabem o que está acontecendo através da visão da mídia. A única diferença para o que já vi em inúmeros blogs conservadores, nas mais variadas oportunidades, é que este artigo tem os números de uma pesquisa para comprovar a tendência.

Agora, toda vez que eu vejo este tipo de argumento como demonstração de que, talvez, as coisas no Iraque não estejam indo tão mal quanto a tal mídia liberal nos faz acreditar, me ocorre uma dúvida que nunca pesquisei mais a fundo, mas que nunca vi alguém comentar: durante a guerra do Vietnã, quais eram os níveis de aprovação da guerra entre militares?

A comparação, obviamente, não é na tentativa de equiparar as duas guerras per se. Mas saber como pensavam os militares que estavam lutando uma guerra que, hoje sabemos, foi um desastre. Eu sei que mais para o fim do Vietnã haviam vários veteranos, como John Kerry, atacando a guerra e a maneira como esta estava se desenrolando. Mas me pergunto se, durante os primeiros anos da mesma, não havia cerca de 64% de militares que julgavam que a guerra iria ser vitoriosa para os EUA e a democracia.

Enfim, sou cético à opinião de militares em relação a uma guerra. Não tenho razão alguma para achar que sua opinião é menos enviesada do que a de jornalistas e acadêmicos, ainda que o viés seja claramente oposto.

November 15, 2005

ainda Paris

Quando começaram os tumultos em Paris, a ala conservadora da blogosfera americana perguntava, aos brados, por que a grande mídia simplesmente não mencionava o fato de que os desordeiros eram muçulmanos. Um bando de comentaristas que só conhece a França a partir de notícias dessa mesma grande mídia, sentados no conforto de sua casa, apontava a obviedade da relação do islamismo com as atitudes dos jovens imigrantes franceses. A imprensa só poderia, como sempre, estar defendendo estes terroristas.

Mas e o que acontece se a gente começa a ler pessoas que efetivamente estão na França acompanhando o quebra-quebra? Que conhecem um pouquinho da sociedade francesa por experiência própria, ao invés de noções preconceituosas de terceira mão? Talvez coisas assim:

Here’s a good rule of thumb: If you come across the phrase “Islamo-fascist” unironically deployed in an article, there’s a 99-percent chance the author doesn’t know what he or she is talking about. The rule has been in full effect over the past few weeks, as rioting in France’s banlieus has allowed the usual gang of idiots to do what they do best: take a kernel of truth (in this case, that the rioters are Muslims and either immigrants or first-generation French citizens) and build it into an apocalyptic, hysterical tirade (in this case, predictions of a Euro-jihad and none-dare-call-it-Islamo-treason castigations of the politically correct mainstream media).

Ou então isto:

But these youths are not religious; their fighting possesses no truck with the faith of peace that passeth understanding. Indeed, fighting is their religion; its prophets, televised gangsters who for them symbolise power and anger.

Ou mesmo isto:

These young men have got a political grievance, and they’re expressing it by setting fire to things and smashing them up. What could be more stereotypically, characteristically French than that? (…) I mean really. Everyone would do well to remember that this is France we’re talking about, not Sweden or perhaps Canada.

Coisas parecidas têm sido ditas há algum tempo, como já havia comentado em um post anterior. No entanto, uma rápida visita a blogueiros conservadores discutindo o assunto, e lá estão os mesmos comentários sobre a “intifada francesa”, a conspiração da grande mídia e absurdos do tipo. Pra mim, só mais uma prova de que blogueiros são tão incompetentes ou mal-intencionados quanto os jornalistas de quem tanto gostam de reclamar.

November 8, 2005

citoyens à la guerre

The current riots,although they involve Muslims, seem to me to have much more in common with the riots and slogans of the black consciousness movement of the seventies. (…) The images of the rioters on the streets of Clichy show them sporting T-shirts labelled mort pour rien. [Died in vain] Now what could be more un-Islamic than that? No claiming of martyrdom or dozens of virgins here. There are not the flags, the typical chanting and sloganizing of Islamism on the marches.

Doze dias depois, eu continuo não comprando a versão da Eurábia, de que os tumultos em Paris e arredores são uma revolta muçulmana contra o Ocidente. Assim como Ms. Adloyada, tudo me parece indicar muito mais semelhanças com os tumultos de Los Angeles em 1965.

O que, obviamente, não quer dizer que não existam lideranças religiosas querendo utilizar estes tumultos para sua causa. Mas até agora não há nada que indique que são muitos, ou que são relevantes. E, o que é mais importante, não há nada para indicar que são eles os responsáveis por ter iniciado a revolta e inflamado uma população de imigrantes pobres e desgostosos com o país que supostamente lhes acolheu. Ou, como diz Belle Waring:

I’m reluctant to embrace the Victor Steyn Hinderaker death-throes of Eurabia thing, since it looks more like your run-of-the-mill broke people rioting, combined with massive state incompetence. The cheerful schadenfreude on this issue from the right is unseemly. “Remember when they mocked our social system because something terrible happened to us? Now something terrible is happening to France! I bet they wish they could go cry on the shoulder of their old friend—Saddam Hussein!”

Não, não me convenço de que o islamismo de parte dos revoltosos seja parte importante para que tenham pegado em armas. E acho que a insistência de boa parte da blogosfera à direita em pintar este quadro só serve para piorar o preconceito contra um povo que não precisa ser ainda mais destratado.

UPDATE: Patrick Belton, do OxBlog, está blogando diretamente de Paris. Como diria Mr. Instapundit, de onde tirei o link, “leiam a coisa toda”. Minha passagem predileta:

Paris is burning. It has done so before. Those of 1848 were the street riots of modernism, heralding enlightenment and republicanism versus the restoration of the ancien regime. The soixante-huitards’s were those of postmodernity, seeking to resituate the individual and power at the centre of a discourse which modernity and liberalism’s had to their view hidden. One is tempted to see in 2005 the riots of the atavistic, but that would be overdrawing the issue - they are the riots of Newark, Watts, and Brixton come to Paris.

November 5, 2005

Paris em chamas

On the other hand, it might be the equivalent of not mentioning that the marchers were Christian—which, of course, the large majority were, often spurred to march from the pulpit. Obviously, I don’t think reporters should be burying any religious angle here. But is there one? You’ve got a bunch of young 20-somethings with dismal-looking job prospects (unemployment approaching one-third in their age bracket and neighborhoods) who already feel marginalized by poverty, race, and immigrant status. Put it this way: Given that most of the rioters are Muslims, is there evidence they’re rioting because they’re Muslims, or even really as Muslims? If it were a Cambodian immigrant community blowing up, would we find it weird if the press didn’t refer to it as a Theravada Buddhist uprising?

Julian Sanchez, irrepreensível, no Hit & Run. Sou igualmente cético quanto à motivação religiosa dos tumultos.